quarta-feira, 10 de junho de 2026

"Crer para ver" é a lógica correta, e não o contrário

 

LIÇÃO 161

Dá-me tua bênção, Filho santo de Deus.

1. Hoje praticamos de modo diferente e assumimos uma posição diante de nossa raiva, a fim de que nossos medos possam desaparecer e oferecer espaço para o amor. A salvação está aqui nas palavras sinceras com que praticamos a ideia de hoje. Aqui está a resposta à tentação, que não pode nunca deixar de acolher o Cristo no lugar em que medo e raiva predominavam antes. Aqui se completa a Expiação, ultrapassa-se o mundo com segurança e o Céu é restituído imediatamente. Aqui está a resposta da Voz por Deus.

2. A abstração completa é a condição natural da mente. Mas uma parte dela não é natural agora. Ela não olha para todas as coisas como uma só. Em lugar disso, ela vê apenas fragmentos do todo, pois apenas deste modo ela poderia inventar o mundo imperfeito que vês. A finalidade de todo o ver é te mostrar aquilo que desejas ver. Todo o ouvir apenas traz a tua mente os sons que queres ouvir.

3. Assim se criaram as particularidades. E agora são as particularidades que temos de usar ao praticar. Nós as damos ao Espírito Santo para que Ele possa empregá-las para um propósito que seja diferente daquele que lhes demos. Contudo, Ele só pode usar o que fizemos para nos ensinar a partir de um ponto de vista diferente, de forma que possamos ver uma utilidade diferente para todas as coisas.

4. Um irmão é todos os irmãos. Cada mente contém todas as mentes, pois todas as mentes são uma só. Esta é a verdade. Mas estes pensamentos deixam claro o significado da criação? Estas palavras trazem com elas perfeita clareza para ti? O que parecem ser exceto sons vazios, belas talvez, corretas em sentimentos, mas fundamentalmente não compreendidas nem compreensíveis. A mente que ensinou a si mesma a pensar de forma particular não pode mais apreender a abstração no sentido de que ela é todo-abrangente. Precisamos ver um pouco para aprender muito.

5. Parece ser o corpo que sentimos limitar nossa liberdade, fazer-nos sofrer e, por fim, extinguir nossa vida. Mas corpos são apenas símbolos para uma forma concreta de medo. O medo, sem símbolos, não pede nenhuma reação, pois os símbolos só podem representar o sem sentido. Por ser verdadeiro, o amor não precisa de nenhum símbolo. Mas o medo, por ser falso, se prende às particularidades.

6. Corpos atacam mas mentes não. Esta ideia é lembrança de nosso livro texto, onde é enfatizada com frequência. É esta a razão pela qual corpos se tornam símbolos de medo facilmente. Insistiu-se muitas vezes contigo para olhares além do corpo, pois a visão dele apresenta o símbolo do "inimigo" do amor que a visão de Cristo não vê. O corpo é o alvo para o ataque pois ninguém pensa odiar uma mente. Porém, o que a não ser a mente determina que o corpo ataque? Que outra coisa poderia ser a sede do medo exceto aquilo que pensa no medo?

7. O ódio é particular. Tem de haver algo a ser atacado. Tem-se de perceber um inimigo de tal forma que ele possa ser atacado e visto e ouvido e, por fim, morto. Quando o ódio pousa sobre algo, ele exige a morte com tanta certeza quanto a Voz de Deus anuncia que a morte não existe. O medo é insaciável e absorve tudo o que seus olhos veem, vendo-se a si mesmo em tudo, forçado a se voltar contra si mesmo e a destruir.

8. Aquele que vê um irmão como um corpo o vê como símbolo do medo. E atacará porque o que vê é seu próprio medo fora de si mesmo, pronto para atacar e clamando para se unir a ele novamente. Não te deixes enganar pela intensidade da raiva que o medo projetado tem de gerar. Ele uiva, em fúria, e arranha o ar na esperança desvairada de poder alcançar seu autor e devorá-lo.

9. É isto que os olhos do corpo veem em alguém a quem o Céu estima, a quem os anjos amam e a quem Deus criou perfeito. Esta é a realidade dele. E, na visão de Cristo, sua beleza se reflete de uma forma tão sagrada e tão linda que dificilmente poderias resistir a te ajoelhares a seus pés. Porém, em vez disso, tomarás a mão dele pois és igual a ele na visão que te vê assim. O ataque a ele é um inimigo para ti, pois não perceberás que tua salvação está nas mãos dele. Pede-lhe apenas isto e ele te dará. Pede-lhe que não simbolize teu medo. Tu pedirias que o amor destruísse a si mesmo? Ou queres que ele te seja revelado e te liberte?

10. Hoje praticamos de uma forma que tentamos anteriormente. Tua prontidão está mais próxima agora e hoje chegarás mais perto da visão de Cristo. Se estiveres atento para alcançá-la, serás bem-sucedido hoje. E, uma vez que fores bem-sucedido, não estarás mais disposto a aceitar as testemunhas que os olhos de teu corpo fazem surgir. O que verás entoará para ti antigas melodias de que te lembrarás. Tu não estás esquecido no Céu. Não queres te lembrar dele?

11. Escolhe um irmão, símbolo dos demais, e pede a salvação a ele. Vê-o, em primeiro lugar, tão claramente quanto puderes, na mesma forma com a qual estás acostumado. Vê o rosto dele, suas mão e pés, sua roupa. Observa o sorriso dele e vê gestos familiares que ele faz com tanta frequência. Em seguida pensa nisto: o que vês agora esconde de ti a visão daquele que pode perdoar todos os teus pecados, cujas mãos sagradas podem arrancar os cravos que trespassam as tuas e erguer a coroa de espinhos que colocaste sobre tua cabeça ensanguentada. Pede-lhe isto para que ele possa te libertar:

Dá-me tua bênção, Filho santo de Deus. Eu quero te ver
com os olhos de Cristo e ver em ti minha inocência perfeita.

12. E Aquele Que invocaste te atenderá. Pois Ele ouvirá a Voz por Deus em ti e responderá com tua própria voz. Olha agora para ele, a quem vês apenas como carne e osso, e reconhece que Cristo vem a ti. A ideia de hoje é tua saída segura para a raiva e para o medo. Certifica-te de a usares imediatamente, caso sejas tentado a atacar um irmão e perceber o símbolo de teu medo nele. E o verás subitamente transformado de inimigo em salvador, de demônio em Cristo.

*

COMENTÁRIO:

Explorando a LIÇÃO 161

Caras, caros,

Por que razão ainda nos acreditamos pessoas miseráveis, parcas de poder, de vontade, incapazes de modificar qualquer situação difícil que se apresente? 

Por que ainda acreditamos que o mundo é cruel e que tudo o que ele faz é para nos magoar e ferir, como se o mundo não fosse absolutamente neutro, sem poder nenhum para nada, a não ser quando lhe damos o poder sobre qualquer coisa?

Aliás, por que ainda acreditamos que existe um mundo? Ou que é preciso melhorá-lo?

Podemos refletir acerca de todas estas questões enquanto praticamos com a ideia que o ensinamento nos traz para hoje e, quem sabe, até encontrar alguma resposta para elas. Quem sabe até possamos chegar ao entendimento das razões por que acontece tudo o que acontece. 

Vamos tentar? 

"Dá-me tua bênção, Filho santo de Deus."

Vamos encontrar, uma vez mais, na ideia que o Curso nos oferece para as práticas de hoje, a todos, todas, a cada um e a cada uma de nós, a única saída possível para o inferno que pensamos viver: o aprendizado da visão de Cristo. É neste aprendizado, e em nossas práticas com a ideia para chegar a ele, que vamos encontrar o meio de pedir - e acreditar que receberemos - que a visão de Cristo nos seja dada, para que nos tornemos capazes de olhar para tudo e para todos como um só, como partes nossas que não estão separadas de nós. Para podermos nos tornar íntegros. Melhor dizendo, para podermos voltar a nos perceber íntegros e íntegras. 

Tudo o que existe é parte de nós e nos completa. Da mesma forma que o Curso ensina que "o Próprio Deus é incompleto sem mim", precisamos nos perceber íntegros e íntegras em nós mesmos, em nós mesmas, com tudo o que está a nossa volta e faz parte de nossa vida. Isto se quisermos corrigir a percepção que, orientada pelo ego, quer que pensemos ser incompletos e incompletas, ou que pensemos que é possível que sejamos incompletos e incompletas, cada vez que excluímos alguma coisa ou alguém de nossa vida. Ou cada vez que alguma coisa sai, ou alguém resolve sair aparentemente de nossa vida.

De acordo com o que o Curso ensina, não há nenhuma particularidade na visão de Cristo. A partir dela somos capazes de perceber que tudo e todos, o tempo todo e a cada momento, cumprem apenas o papel que lhes cabe no plano de Deus para a salvação. É também a partir dela que podemos compreender que tudo o que vemos é apenas uma interpretação que fazemos da realidade aparente, por e para nossa percepção equivocada. As práticas ensinam que podemos mudar isto valendo-nos da visão de Cristo.

Ainda de acordo com o que o Curso ensina, assim como é impossível não acreditarmos naquilo que vemos, é igualmente impossível ver algo em que não acreditamos. Pois nossa percepção - a de todos, todas, a de qualquer um e a de qualquer uma de nós - se constrói a partir da(s) experiência(s), que leva(m) à(s) crença(s) e a(s) constrói(oem). 

Precisamos, porém, ter em mente de forma bem clara que percepção e consciência são coisas diferentes, muito embora usemos a palavra percepção indistintamente para nos referirmos tanto à consciência quanto à interpretação daquilo de que tomamos consciência. A lógica correta, para quem se acredita espírito e não só corpo, é "crer para ver", e não o contrário, como quer o ego.

Precisamos aprender e ter bem claro para nós mesmos e para nós mesmas, e em nós, o tempo todo, que tudo o que percebemos é apenas nossa própria interpretação [normalmente orientada na maioria das vezes pelo ego] daquilo que vemos, daquilo que projetamos no mundo e que tomamos por realidade, ou daquilo que experimentamos a partir dos sentidos. Pois a consciência não necessita da percepção nem das crenças, nem das imagens.

Daí, a necessidade de aprendermos a usar a visão de Cristo para abandonar de uma vez por todas a interpretação que fazemos do mundo e das coisas do mundo a partir do sistema de pensamento do ego. Como já vimos, o mundo - e tudo e todos que existem nele - é neutro. Apenas nós podemos lhe dar valor e significado.

Daí a necessidade das práticas. 

A elas?

terça-feira, 9 de junho de 2026

Estamos sempre no lugar certo, seja indo ou voltando

 

LIÇÃO 160

Estou em casa. O medo é o estranho aqui.

1. O medo é um estranho para os caminhos do amor. Identifica-te com o medo e serás um estranho para ti mesmo. E, desta forma, te tornas desconhecido para ti. Aquilo que é teu Ser continua a ser um estranho para a parte de ti que pensa ser real, mas diferente de ti mesmo. Quem poderia ser são em tal circunstância? Quem a não ser um louco poderia acreditar que é aquilo que não é se decidir contra si mesmo.

2. Há um estranho no meio de nós, que veio de uma ideia tão estranha à verdade que fala uma língua diferente, olha para um mundo que a verdade não conhece e compreende aquilo que a verdade considera sem sentido. Mais estranho ainda, ele não reconhece aquele a quem vem e ainda afirma que o lar dele lhe pertence, enquanto que aquele que está em casa é agora o estranho. E, não obstante, quão fácil seria dizer: "Este é meu lar. Meu lugar é aqui e não sairei porque um louco diz que devo".

3. Que razão existe para não se dizer isto? Qual poderia ser a razão exceto que convidaste este estranho a entrar para tomar teu lugar e permitir que fosses um estranho para ti mesmo? Ninguém se permitiria ser despejado de forma tão desnecessária, a menos que pensasse haver outro lar mais adequado a seus gostos.

4. Quem é o estranho? É o medo ou és tu que és inadequado ao lar que Deus proporcionou a Seu Filho? O medo é d'Ele Mesmo, criado a Sua semelhança? É ao medo que o amor completa e por que é completado? Não existe nenhum lar que possa abrigar o amor e o medo. Eles não podem coexistir. Se tu és real, então o medo tem de ser ilusão. E, se o medo é real, então tu não existes em absoluto.

5. Com que simplicidade, então, a questão se resolve. Quem tem medo apenas nega a si mesmo e diz: "Eu sou o estranho aqui. E, por esta razão, deixo meu lar para alguém mais parecido comigo do que eu mesmo e dou a ele tudo o que eu pensava me pertencer". Agora, porque é inevitável, ele está exilado, sem saber quem é, inseguro acerca de todas as coisas menos desta: que ele não é ele mesmo e que seu lar lhe foi negado.

6. O que ele busca agora? O que pode achar? Um estranho para si mesmo não pode achar nenhum lar seja qual for o lugar em que possa procurar, porque tornou impossível a volta. Seu caminho está perdido, a não ser que um milagre o descubra e lhe mostre imediatamente que ele não é nenhum estranho. O milagre virá. Pois o Ser dele permanece em seu lar. Ele não solicitou nenhum estranho e não aceitou nenhum pensamento estranho para ser Ele Mesmo. E chamará o que Lhe é Próprio para Si Mesmo em reconhecimento daquilo que Lhe pertence.

7. Quem é o estranho? Ele não é aquele por quem teu Ser não chama? Agora tu és incapaz de reconhecer este estranho em teu meio, pois tu lhe deste teu lugar legítimo. No entanto, teu Ser é tão seguro do que Lhe pertence quanto Deus de Seu Filho. Ele não pode ficar confuso acerca da criação. Ele tem certeza do que Lhe pertence. Nenhum estranho pode se interpor entre o conhecimento d'Ele e a realidade de Seu Filho. Ele não conhece estranhos. Ele está seguro acerca de Seu Filho.

8. A certeza de Deus basta. O lugar d'Aquele Que Ele conhece como Seu Filho é aquele no qual Ele estabelece Seu Filho para sempre. Ele responde a ti, que perguntas: "Quem é o estranho"? Ouve Sua Voz te assegurar, segura e serenamente, que não és um estranho para teu Pai e que teu Criador também não se tornou estranho para ti. Aquele a quem Deus se une continua a ser um só para sempre à vontade n'Ele, sem ser estranho para Si Mesmo.

9. Hoje damos graças por Cristo vir procurar no mundo aquilo que Lhe pertence. A visão d'Ele não vê nenhum estranho, mas vê os Seus e se une a eles alegremente. Eles O veem como um estranho, pois não se reconhecem. Porém, quando Lhe dão as boas vindas, eles se lembram. E Ele, mais uma vez, os conduz bondosamente a casa, onde é o lugar deles.

10. Cristo não esquece nenhum. Ele não deixa de te dar nenhum para te lembrares, a fim de que teu lar possa ficar completo e perfeito tal como foi criado. Ele não te esquece. Mas tu não te lembrarás d'Ele até olhares para todos do modo que Ele olha. Aquele que nega seu irmão O nega e, desta forma, se recusa a aceitar a dádiva da visão pela qual seu Ser é reconhecido claramente, seu lar é lembrado e a salvação chega.


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COMENTÁRIO:

Explorando a LIÇÃO 160

Caras, caros,

O que nos impede de viver plenamente cada um e todos os momentos que a vida nos apresenta? Não será o fato de não sabermos parar de imaginar como esta ou aquela situação poderia ser diferente, se...? Ou não seria o fato de no momento em que estamos nalgum lugar, fazendo alguma coisa, já tenhamos nossos pensamentos voltados para o que faremos quando isto acabar? Ou, ainda, não pode ser o fato de que começamos alguma coisa já com os olhos voltados para o fim daquilo, para os resultados que vamos obter do que fazemos? Ou com tudo o que nos vai ser possível fazer a partir dos resultados que esperamos obter?

Na verdade, parece-me, nunca nos damos por satisfeitos. Nunca, ou quase nunca, nos sentimos em casa. Mesmo quando em casa. Há uma espécie de comichão que nos atormenta, algo que em geral não sabemos definir, e que nos leva a nunca viver o por inteiro instante que se apresenta. Deixamos, muitas vezes, de experimentar o "instante santo", de que fala o Curso, pela absoluta incapacidade de aquietar-nos, de embarcar na viagem a que o momento quer nos levar.

É por isso que precisamos dar toda a atenção de que somos capazes para a ideia com a qual vamos praticar neste dia. Quem sabe aprendamos com ela que não há lugar no mundo que não seja nossa casa e que, como dizia uma lição anterior, "não há nada a temer".

Vamos à exploração?

"Estou em casa. O medo é o estranho aqui."

Hoje vamos, mais uma vez, do mesmo modo que já praticamos em anos passados, buscar aprender a ficar à vontade na casa de Deus, que é o nosso lar. Pois a ideia que vamos praticar nos permite afastar todo o medo que ronda nossa casa, que ameaça nosso lar. Mas apenas na ilusão.

Na verdade, podemos ficar à vontade com o que somos também, pois somos a casa de Deus, Seu lar, da mesma forma que Ele é o nosso. E, quando nos sentimos à vontade, o que experimentamos só pode ser paz, alegria, serenidade. Ou pode passar algum temor pela cabeça de quem se sente inteiramente em paz?

É por isso que nada de estranho pode nos ameaçar quando estamos em casa, quando estamos à vontade com o que somos, em Deus, com Ele. É a isto que se destina nossa prática hoje. Como dizia uma lição anterior, "não há nada a temer". É preciso que aprendamos, a partir das lições que o Curso oferece, a nos sentir em casa, a ficar à vontade, onde quer que estejamos no mundo. Pois Deus está sempre conosco, aonde quer que estejamos. E nós vivemos e nos movemos n'Ele. 

O Curso ensina que não há nenhuma possibilidade, em nenhum momento, de estarmos em qualquer lugar diferente daquele em que estamos. Ensina também, repetindo para reforçar, que onde quer que estejamos estamos em Deus. E que Ele vai conosco aonde formos. Também não podemos ser nada, nem sequer uma zilionésima fração, qualquer que seja ela, diferentes daquilo que somos o tempo inteiro, mesmo quando ainda não temos consciência disto.

Isto é, dizendo de outro modo, por menor que seja a nossa consciência de nós mesmos e de nós mesmas, e daquilo que somos em Deus e com Ele/Ela, estamos e nos movemos n'Ele/Ela o tempo inteiro. E seja qual for o nome que aprendemos para nos referirmos a Ele, repetindo uma vez mais, Ele/Ela vai conosco aonde formos [mais uma ideia que já praticamos de vários modos diferentes em lições anteriores].

Guimarães Rosa diz isto, a certa altura em seu livro Grande Sertão: Veredas, da seguinte maneira:

No ir - seja até onde se for - tem-se de voltar: mas, seja como for, que se esteja indo ou voltando, sempre já se está no lugar, no ponto final.

E Deus conosco. E, afinal de contas, toda a viagem é apenas em direção a nós mesmos, a nós mesmas.

É n'Ele/Ela que nos movemos e tudo o que é real só pode verdadeiramente encontrar sua expressão n'Ele/Ela. E, por mais forte que seja nossa crença na ideia de que podemos estar separados, ou separadas, d'Ele/Ela de alguma forma, sempre seremos, na verdade, apenas aquilo que somos com Ele/Ela e n'Ele/Ela. Não importa o que façamos. Tudo o que fazemos -  e que muda - muda apenas de forma ilusória. Aquilo que somos, em essência, não muda nunca.

Isto não é, pois, razão suficiente para se ficar à vontade? Aonde quer que pensemos estar? Aonde quer que estejamos? Uma vez que só podemos sempre, em qualquer situação ou circunstância, estar aonde estamos, em contato permanente com o que somos, mesmo quando não estamos cientes disso, é certo que já estamos sempre no ponto final. Indo ou voltando. No lugar certo.

Antes de finalizar este comentário, que repete quase que integralmente os de anos anteriores, quero lhes oferecer uma anotação feita após a viagem que fiz há já algum tempo, uma anotação feita na volta, e em cima da leitura do seguinte parágrafo do livro A Escola dos Deuses. Acho que isso também tem a ver com a ideia para as práticas de hoje. 

Elio D'Ana diz o seguinte no livro: 

"Saber que o mundo, a massa, não pode ter vontade [própria] é reconhecer, com o avião já no ar, que não existe piloto, e saber, em poucos instantes, como funcionam todos os instrumentos e assumir o comando do avião." 

Bem... eis-me voltando de Paris para São Paulo, num voo cuja duração prevista era de 10 horas e 55 minutos, tendo embarcado por volta da meia-noite. 

De repente, em pleno ar, em horário indefinido, tu te descobres como aquele que está passando, indo de um lugar a outro e que nenhum dos dois lugares existe verdadeiramente. Não são reais. Pelo menos, não enquanto não chegares a um deles [e mesmo depois de chegares eles não existem a não ser como a experiência ilusória que o mundo nos oferece]. Aparentemente, não há nada a tua frente, nem atrás, nem acima, nem abaixo. Tudo o que ouves é o barulho de motores, de um avião pilotado por alguém que nem sabes se está de fato lá. 

Nem mesmo aquilo que acreditas que és é real. Então, tu te descobres flutuando no ar, ou tens a sensação de estar flutuando. Livre de qualquer preocupação, de qualquer dúvida, de qualquer medo.

Porque aquilo que tu és assume o controle e tu sabes que o que quer que venha a acontecer será o melhor para ti e para todos aqueles com quem compartilhas tua experiência de existir, de viver num lugar, num tempo, mesmo que esta experiência seja apenas ilusória a maior parte do tempo. O fato é que já estás, sempre estás, no lugar aonde tens de estar.

Tu sabes, assim, do nada, que não importa aonde fores, não importa o que fizeres, a viagem, qualquer delas, é sempre na direção de ti mesmo, na direção de tua integridade, de tua completude na luz de que és feito, na luz que é a mesma para ti e para todos. Mesmo para aqueles que não têm, nem buscam de algum modo, a consciência de si mesmos, o dito autoconhecimento. 

E repito aqui a citação de Rosa:

No ir - seja até onde se for - tem-se de voltar: mas, seja como for, que se esteja indo ou voltando, sempre já se está no lugar, no ponto final.

Às práticas?

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Tu só podes receber do universo aquilo que dás a ele

 

LIÇÃO 159

Eu dou os milagres que recebo.

1. Ninguém pode dar o que não recebeu. Dar alguma coisa exige, em primeiro lugar, que a tenhas em teu próprio poder. Aqui, as leis do Céu e as do mundo estão de acordo. Mas aqui elas também se separam. O mundo acredita que para se possuir uma coisa ela tem de ser conservada. A salvação ensina o contrário. Dar é a maneira de reconhecer que recebeste. É a prova de que o que tens te pertence.

2. Tu compreendes que estás curado, quando ofereces a cura. Tu aceitas o perdão como realizado em ti mesmo, quando perdoas. Tu reconheces teu irmão como tu mesmo e, deste modo, percebes que és íntegro de fato. Não há nenhum milagre que não possas oferecer, pois todos te são dados. Recebe-os agora abrindo o depósito de tua mente aonde eles estão guardados e distribuindo-os.

3. A visão de Cristo é um milagre. Ela vem de muito além de si mesma, pois reflete o amor eterno e o renascimento do amor que nunca morre, mas que se manteve escondido. A visão de Cristo retrata o Céu, pois vê um mundo tão semelhante ao Céu que aquilo que Deus criou perfeito pode se espelhar aí. O espelho opaco que o mundo apresenta só pode mostrar imagens distorcidas em cacos. O mundo real retrata a inocência do Céu.

4. A visão de Cristo é o milagre no qual nascem todos os milagres. Ela é a fonte deles, permanecendo com cada milagre que ofereces e, ainda assim, continuando a ser tua. Ela é o laço pelo qual se unem em extensão doador e receptor aqui na terra, da mesma forma que são um só no Céu. Cristo não vê nenhum pecado em ninguém. E em sua visão os inocentes são como um só. A santidade deles foi dada por Seu Pai e por Ele Mesmo.

5. A visão de Cristo é a ponte entre os mundos. E podes confiar seguramente no poder dela para te levar deste mundo a um mundo que se tornou santo pelo perdão. As coisas que parecem sólidas aqui são apenas sombras lá; transparentes, vistas vagamente, esquecidas às vezes e nunca capazes de esconder a luz que brilha além delas. Devolveu-se a santidade à visão e os cegos podem ver.

6. Esta é a dádiva singular do Espírito Santo: a casa do tesouro à qual podes apelar com total segurança em busca de todas as coisas que podem contribuir para tua felicidade. Todas já estão depositadas aqui. Todas podem ser recebidas, basta pedir. Aqui a porta nunca está trancada, e não se nega a ninguém seu menor pedido ou sua necessidade mais urgente. Não há nenhuma doença que já não esteja curada, nenhuma falta não satisfeita, nenhuma necessidade não atendida dentro desta fonte preciosa de Cristo.

7. Aqui o mundo se lembra, de fato, do que se perdeu quando ele foi criado. Pois aqui ele se conserta, torna-se novo mais uma vez, mas sob uma luz diferente. Aquilo que devia ser o lar do pecado se torna o centro da redenção e o núcleo da misericórdia, onde os sofredores são curados e acolhidos. Ninguém será mandado embora deste novo lar, aonde a salvação espera. Ninguém é estranho para ele. Ninguém pede nada a ele a não ser a dádiva de sua aceitação e de sua acolhida.

8. A visão de Cristo é o solo sagrado no qual os lírios do perdão fincam suas raízes. Este é o lar deles. Daqui, eles podem ser levados de volta ao mundo, mas não podem crescer nunca em seu solo desnutrido e raso. Eles precisam da luz e do calor e do cuidado benigno que a caridade de Cristo oferece. Precisam do amor com que Ele olha para eles. E eles se tornam mensageiros d'Ele, que dão do mesmo modo que receberam.

9. Retira do depósito d'Ele, a fim de que seus tesouros possam aumentar. Seus lírios não deixam seu lar quando são levados de volta ao mundo. Suas raízes permanecem. Eles não deixam sua fonte, mas carregam sua benevolência consigo e transformam o mundo em um jardim igual àquele de onde vieram e ao qual vão mais uma vez com mais perfume. Agora são duplamente abençoados. As mensagens de Cristo, que trouxeram, foram entregues e voltaram para eles. E eles a devolvem a Ele com alegria.

10. Olha para o depósito de milagres planejado para dares. Não és digno da dádiva, se Deus escolheu que ela te fosse dada? Não julgues o Filho de Deus, mas segue no caminho que Ele indica. Cristo sonha o sonho de um mundo perdoado. É Sua dádiva, pela qual se pode fazer uma transição agradável da morte para a vida, da desesperança para a esperança. Sonhemos com Ele por um instante. Seu sonho nos desperta para a verdade. Sua visão nos dá o meio para uma volta a nossa santidade em Deus, nunca perdida e eterna.


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COMENTÁRIO:

Explorando a LIÇÃO 159

Caras, caros,

A ideia que vamos praticar hoje é meio que uma repetição da que praticamos ontem. Ela apenas usa palavras diferentes para dizem a mesma coisa. 

Ou lhes parece que há alguma diferença entre dizer "hoje aprendo a dar como recebo" e 

"Eu dou os milagres que recebo." [?]

A meu ver podemos usar para explorar a ideia o mesmo ponto de partida de que nos valemos para a exploração da ideia de ontem. Quer dizer, precisamos nos lembrar, e ter sempre em mente, para aprender de fato a dar, o quanto recebemos, e também, é claro, reconhecer que a maior parte do tempo somos, todas e todos, pessoas muito mal-agradecidas, como eu disse outro dia no começo de um comentário a uma outra lição.

Assim, vamos buscar nos lembrar, mais uma vez, enquanto praticamos novamente a ideia de hoje, que já aprendemos, como o Curso ensina, que só temos, de fato, aquilo que damos? Esta é uma das ideias mais importantes que podemos aprender - e talvez das mais difíceis de se aceitar -, se desejarmos realmente alcançar a meta que o Curso propõe com seu ensinamento. Esta ideia contraria tudo aquilo que o mundo nos ensina a respeito da posse, a respeito de ter. Pois o mundo ensina que "ter" é algo separado de "ser". Enquanto o Curso ensina que "ter" e "ser" são sinônimos e que dar e receber são a mesma coisa.

O que o mundo nos ensina é apenas um equívoco, que tem origem na crença em uma separação que nunca aconteceu. Uma separação que não pode acontecer e não acontecerá jamais. Isto é, um equívoco gerado pela ideia de que podemos existir e viver separados e separadas da Fonte, de Deus, que é a origem da vida e da existência, dê-se a Ela/Ele o nome que quisermos. 

É por esta razão que o Curso ensina que "dar e receber são a mesma coisa". Pois só podemos dar aquilo que recebemos de Deus, quando queremos dar verdadeiramente. O que damos na experiência da ilusão não conta porque só faz aumentar a ilusão. Além disso, devolve a nós, muitas vezes, aquilo que não queremos. Porque acreditar que qualquer coisa ilusória [do mundo] possa ter qualquer valor é confirmar e reforçar a crença na separação. Da mesma forma que acreditar que qualquer coisa nos falte é revelador de que nos percebemos separados e separadas da Fonte, acreditando que não tenhamos recebido tudo, e que ainda nos falta alguma coisa.

Na criação, porém, recebemos tudo. Na verdade, ainda de acordo com este ensinamento, só temos, de fato, aquilo que somos [e damos], conforme eu já disse acima, e nunca é demais repetir. Por consequência, quanto mais aprendermos a dar de nós mesmos e de nós mesmas [sendo o que somos de verdade] a tudo, a todas e a todos [que também são o que somos], tanto mais receberemos.

As dúvidas que podemos ter acerca de dar se referem apenas ao fato de que, em geral, não sabemos qual é nossa função no mundo. Isto é, não temos certeza do propósito que nos trouxe até a experiência que passamos neste mundo.

Wayne Dyer, mais uma vez, pode nos socorrer a este respeito. Ele diz que cada um, ou cada uma, de nós chega a este mundo sem nada. E vai deixar o mundo exatamente da mesma maneira. Tudo o que fizermos no mundo, tudo o que adquirirmos aqui não vai nos acompanhar. É por isso que só podemos fazer com nossa vida uma única coisa: doá-la.

Dyer diz que o propósito da vida de cada um e de cada uma de nós envolve "o serviço". Envolve deixarmos de nos concentrar em nós mesmos e em nós mesmas e em interesses pessoais e nos colocarmos a serviço das outras pessoas todas do mundo de alguma forma [lembremo-nos de que tudo o que damos é a nós mesmos e a nós mesmas que damos].

A lição mais importante que podemos aprender, segundo ele, é aquela que nos faz decidir a deixar de encarar a vida de modo pessoal. Podemos eliminar todo e qualquer sofrimento se nos lembrarmos de que "nada no universo é pessoal". Sim, sim, é claro que, no mundo ilusório do ego, nos ensinaram, e vão continuar a nos ensinar sempre, a encarar a vida de modo extremamente pessoal, mas este modo de encará-la faz parte apenas da ilusão, das tentativas do ego de provar sua existência, sua realidade.

É necessário, pois, aprendermos a domesticar o ego [que, na verdade, não existe a não ser como uma projeção de nossa crença na separação] - o que é bem possível a todos e todas, e a cada um e cada uma de nós - e a nos libertarmos totalmente de levar qualquer coisa para o lado pessoal. De novo: "Nada no universo é pessoal". Aquilo que recebemos dele tem a ver unicamente com o que oferecemos a ele. E o que podemos oferecer a ele é só o que temos, o que trazemos interiormente. Lembram-se do exemplo de ontem? O que podemos extrair da laranja se a espremermos?

Às práticas?

domingo, 7 de junho de 2026

Aquilo que damos é o que trazemos em nós. Sempre.

 

LIÇÃO 158

Hoje aprendo a dar como recebo.

1. O que te é dado? O conhecimento de que és uma mente, na Mente e apenas mente, para sempre inocente, totalmente sem medo, porque foste criado a partir do amor. E que também não deixas tua Fonte, permanecendo sempre como foste criado. Isto te foi dado como conhecimento que não podes perder. Este conhecimento também foi dado a todas as coisas vivas, pois é apenas por ele que se vive.

2. Tu recebes tudo isto. Ninguém que ande pelo mundo deixa de recebê-lo. Não é este conhecimento que dás, pois este é o que a criação deu. Não se pode aprender tudo isto. O que, então, tens de aprender a dar hoje? Nossa lição de ontem lembrou de um tema que se encontra bem no início do livro texto. A experiência não pode ser compartilhada de forma direta, do modo que a visão pode. A descoberta de que o Pai e o Filho são um só virá a seu tempo a cada mente. Este tempo, porém, é decidido pela própria mente, não é ensinado.

3. Esse momento já está estabelecido. Ele parece ser bastante arbitrário. Todavia não há nenhum passo ao longo da estrada que alguém dê apenas por acaso. Esse passo já foi dado por ele, embora ele ainda não o tenha iniciado. Pois o tempo apenas parece ir em uma direção. Nós apenas empreendemos uma jornada que já acabou. Porém, ela parece reservar um futuro ainda desconhecido para nós.

4. O tempo é um truque, um passe de mágica, uma imensa ilusão na qual imagens vêm e vão como que por encanto. Mas, por detrás das aparências, há um plano que não muda. O roteiro está escrito. O momento em que a experiência virá para pôr fim a tua dúvida está decidido. Pois nós só vemos a jornada, a partir do ponto em que ela terminou, olhando em retrospectiva para ela, imaginando que a fazemos mais uma vez, revendo mentalmente o que passou.

5. Um professor não oferece experiência, porque ele não a aprendeu. Ela se revelou a ele no momento indicado a ela. Mas a visão é sua dádiva. Esta ele pode dar diretamente, pois o conhecimento de Cristo não está perdido, porque Ele tem uma visão que pode dar a qualquer um que a peça. A Vontade do Pai e a d'Ele estão unidas no conhecimento. Mas há uma visão que o Espirito Santo vê, porque a Mente de Cristo também a vê.

6. Aqui se dá a união do mundo das dúvidas e das sombras com o intangível. Eis aqui um lugar sereno dentro do mundo, tornado santo pelo perdão e pelo amor. Aqui todas as contradições se harmonizam, pois aqui a jornada chega ao fim. A experiência - não aprendida, não ensinada, não vista - existe simplesmente. Isto está além de nossa meta, pois transcende o que precisa ser realizado. Nossa atenção é para com a visão de Cristo. Esta nós podemos obter.

7. A visão de Cristo tem uma só lei. Ela não olha para um corpo e o confunde com o Filho que Deus criou. Ela vê uma luz além do corpo; uma ideia além daquilo que se pode tocar, uma pureza não manchada por erros, por equívocos lamentáveis e pensamentos amedrontadores de culpa, oriundos de sonhos de pecado. Ela não vê nenhuma separação. E olha para todos, em cada circunstância, em todos os acontecimentos e situações, sem o menor enfraquecimento da luz que vê.

8. Isto se pode ensinar; e tem de ser ensinado por todos que querem alcançá-lo. Exige apenas o reconhecimento de que o mundo não pode dar nada que nem de leve possa se comparar a isto em valor, nem estabelecer uma meta que não desapareça simplesmente quando se percebe isto. E tu dás isto hoje: não vejas ninguém como um corpo. Saúda cada um como o Filho de Deus que ele é, reconhecendo que ele é um contigo na santidade.

9. Assim perdoa-se seus pecados, pois Cristo tem a visão que tem poder para ignorar todos eles. Em Seu perdão eles desaparecem. Não vistos pelo Uno, eles simplesmente desaparecem, porque uma visão da santidade que há por trás deles vem para tomar seu lugar. Não importa a forma que eles tomem, nem quão atrozes eles pareçam ser, nem quem parece ser ferido por eles. Eles não existem mais. E todos os efeitos que pareciam ter desaparecem com eles, desfeitos para não existirem nunca mais.

10. Desta forma aprendes a dar como recebes. E também desta forma a visão de Cristo olha para ti. Não é difícil aprender esta lição, se te lembrares de que vês apenas a ti mesmo em teu irmão. Se ele estiver perdido no pecado, tu também tens de estar; se vires luz nele, teus pecados foram perdoados por ti mesmo. Cada irmão que encontrares hoje apresenta uma nova chance para deixares que a visão de Cristo brilhe sobre ti e te oferece a paz de Deus.

11. Não importa o momento em que a revelação virá, pois ela não pertence ao tempo. Porém, o tempo ainda tem uma dádiva a oferecer, na qual se reflete o verdadeiro conhecimento de um modo tão preciso que suas imagens compartilham sua santidade invisível; sua semelhança brilha com seu amor imortal. Hoje praticamos ver com os olhos de Cristo. E, a partir das dádivas sagradas que oferecemos, a visão de Cristo também olha para nós. 

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COMENTÁRIO:

Explorando a LIÇÃO 158

Caras, caros,

Parece-me que já falei outras vezes neste espaço a respeito do quanto, em geral, somos, todas e todos, pessoas mal-agradecidas. 

De uma forma muito simplificada pode-se dizer que a maior parte do tempo não reconhecemos o quanto temos a agradecer por termos nascido com todos os privilégios que temos, embora não os consideremos, a rigor, privilégios. Apenas por falta de consciência.

Esquecemo-nos de que a imensa maioria das pessoas no mundo inteiro tem lutar com unhas e dentes todos os dias para conseguir fazer uma refeição por dia. Esquecemo-nos de que no mundo inteiro, nalguns lugares mais, noutros menos, muitas pessoas não sabem se chegarão vivas a suas casas ao final de um dia de trabalho, em função da violência que grassa em seus lugares de morada, ou em função das guerras desencadeadas na maioria das vezes por outros países contra os seus, mas também das guerras civis, causadas pela tirania de alguns governos nalguns países. E pela insanidade de governantes no mundo inteiro, que se acham no direito de exterminar pessoas e civilizações por desejo de expansão de território, ou simplesmente pelo ódio que devotam a semelhantes seus que não partilham de suas crenças. Isto acontece desde que o mundo  é mundo. E sempre na ilusão, se olharmos bem.

Assim é que tem de ser extremamente interessante refletir a respeito daquilo que recebemos já desde o nascimento e o quanto temos a agradecer por isso. Ao mesmo tempo, também é interessante que nossa reflexão se dê na direção de buscarmos nos tornar capazes de dar mais, de dar tanto quanto recebemos, de nos doarmos à vida, às pessoas todas que partilham este mundo conosco. Quem sabe assim nos tornaremos instrumentos da paz.

É na direção deste aprendizado que as práticas com a ideia que o Curso oferece hoje.

"Hoje aprendo a dar como recebo."

A ideia que vamos praticar hoje, mais uma vez, remete a outras duas ideias básicas do ensinamento do Curso conforme eu já chamei sua atenção a respeito antes. Duas ideias que é bom termos sempre em mente. Uma delas é a de que "ideias não deixam sua fonte". Isto se aplica também a nós mesmos, a nós mesmas, que, na condição de pensamentos de Deus, na unidade com Ele/Ela, não podemos estar separados, nem separadas d'Ele/Ela, como o ego quer nos fazer acreditar.

A outra é uma ideia que apareceu na lição ontem: a de que não nos é possível ensinar a experiência de forma direta. Dito de outra forma, aquilo que decidimos experimentar - e experimentamos - deixa marcas em nós, de um modo que não pode ser comunicado, nem compartilhado, porque, no fundo, no fundo, não somos capazes de pôr em palavras o que experimentamos. Ou seja, não podemos compartilhar aquilo que acreditamos saber e que não é fruto de um aprendizado adquirido de maneira semelhante à forma pela qual o mundo ensina. Isto significa dizer ainda que aquilo que sabemos ser, e somos, não pode ser compartilhado de forma direta também, porque só o sabemos sendo, nunca falando a respeito disso.

É por isto que a lição de hoje nos leva a praticar outra forma de aprendizado. Uma forma que nos permite partilhar a visão, quando a aprendemos. Ou seja, podemos aprender e ensinar a visão de Cristo. Basta que estejamos dispostos e dispostas a olhar para cada um de nossos irmãos, para cada uma de nossas irmãs - e para todos eles e todas elas - e ver nele e nela, ou neles todos e nelas todas, apenas o Filho, ou a Filha, de Deus. 

Isto significa abrir mão de todo e qualquer julgamento, de toda e qualquer tentativa de controle ou domínio. Pois como a lição nos lembra, aquilo que vemos no(s) outro(s), ou na(s) outra(s), é apenas um reflexo daquilo que vemos em nós mesmos e em nós mesmas, daquilo que trazemos em nós e que, muitas vezes, não somos capazes ou não queremos reconhecer.

Estendendo ainda um pouco o comentário, é preciso que nos lembremos de que, como ensina Wayne Dyer, a partir também do Curso, tu não podes dar aquilo que não tens.

Assim, enquanto não aprendermos a dar como recebemos - o que recebemos de Deus, e não a partir de nossa percepção equivocada -, não perceberemos que Deus nos dá tudo. Nem teremos presente a ideia de que só nos pode faltar aquilo que não damos, como o Curso ensina.

Indo ainda um pouco mais longe, e continuando com o pensamento naquilo que Dyer diz, só podemos dar aquilo que temos, e o que temos é o que pensamos trazer em nosso interior. Isto é, como ele diz, aquilo que damos a cada dia são itens de nosso inventário pessoal. Se passamos adiante o ódio, é porque temos ódio armazenado dentro de nós para dar. Se passamos adiante a miséria, a escassez e a carência, isso significa que possuímos um suprimento destas coisas disponível para distribuição.

E, reprisando, o exemplo mais interessante que ele dá está no ato de espremer uma laranja. É o seguinte:

"Quando esprememos uma laranja, sempre obtemos suco de laranja. Esta afirmação é verdadeira independentemente de quem esprema a laranja, da hora em que a fruta é espremida, do instrumento usado para espremê-la ou das circunstâncias que envolvem o ato de espremer a laranja. O que sai é o que está do lado de dentro."

A mesma lógica se aplica a cada um, a cada uma e a todos e todas nós. Quando alguém te aperta, exerce sobre ti algum tipo de pressão ou diz alguma coisa pouco lisonjeira ou crítica a teu respeito, e de dentro de ti sai a raiva, o ódio, a amargura, a tensão, a depressão ou a ansiedade, são estas coisas que tu tens do lado de dentro.

A ironia é que não podes dar o que não tens porque estás sempre dando o que tens e, por consequência, recarregando tua vida com aquilo que dás. Seja o que for. Para sair do círculo e deixar de receber aquilo de que não gostas, é preciso que te perguntes: - o que tenho dentro de mim? e - por que escolher armazenar este tipo de energia para oferecer aos outros?

As práticas com a ideia de hoje podem te [nos] ajudar a responder a estas questões e a escolher de modo diferente. 

Às práticas?