sexta-feira, 12 de junho de 2026

Para quem crê na morte, não há liberdade possível

 

LIÇÃO 163

Não há morte. O Filho de Deus é livre.

1. A morte é uma ideia que assume muitas formas, muitas vezes não reconhecidas. Pode se apresentar como tristeza, medo, ansiedade ou dúvida; como raiva, descrença e falta de confiança; cuidado com corpos, inveja e todas as formas em que o desejo de seres como não és possa vir a te tentar. Todos estes pensamentos são apenas reflexos da adoração da morte como salvadora e doadora da liberação.

2. Personificação do medo, anfitrião do pecado, deus da culpa e senhor das ilusões e enganos, o pensamento da morte parece, de fato, poderoso. Pois ela parece manter todas as coisas vivas ao alcance de sua mão ressequida; todas as esperanças e desejos sob sua influência maléfica; todas as metas percebidas apenas sob a influência de seus olhos invisíveis. O frágil, o desamparado e o doente se curvam diante de sua imagem, pensando que só ela é real, inevitável, digna de sua confiança. Pois só ela virá com certeza.

3. Todas as coisas a não ser a morte são vistas como incertas, perdidas muito rapidamente apesar de difíceis de ganhar, duvidosas em seus resultados, inclinadas a frustrar as expectativas que geraram em algum momento e a deixar o gosto de pó e de cinzas em seu rastro, em lugar das aspirações e dos sonhos. Só se pode contar com a morte. Pois ela virá com passos seguros quando chegar o momento de sua vinda. Ela nunca deixará de tomar toda vida como refém de si mesma.

4. Tu te curvarias diante de ídolos como este? Nisto se percebe a força e o poder do Próprio Deus no interior de um ídolo feito de pó. Nisto se anuncia o opositor de Deus como senhor de toda a criação, mais forte do que a Vontade de Deus em favor da vida, da infinitude do amor e da constância perfeita e imutável do Céu. Nisto derrota-se finalmente a Vontade do Pai e a do Filho, que são enterradas sob a lápide que a morte coloca sobre o corpo do Filho santo de Deus.

5. Pecaminoso na derrota, ele se torna o que a morte quer que ele seja. Seu epitáfio, que a própria morte escreve, não lhe atribui nenhum nome, pois ele se transforma em pó. Ele diz apenas isto: "Aqui jaz uma testemunha de que Deus está morto". E ela escreve isto vezes sem conta enquanto, o tempo todo, seus adoradores concordam e, ajoelhando-se com a fronte no chão, sussurram que é verdade.

6. É impossível adorar a morte sob qualquer forma e mesmo assim escolher algumas que não apreciarias e que ainda evitarias, embora ainda acreditasses nas demais. Pois a morte é total. Ou todas as coisas morrem ou, ao contrário, elas vivem e não podem morrer. Nenhuma transigência é possível. Pois aqui, mais uma vez, percebemos uma posição evidente que temos de aceitar se formos sãos; aquilo que contradiz uma ideia por completo não pode ser verdadeiro, a menos que seu contrário se prove falso.

7. A ideia da morte de Deus é tão absurda que até mesmo os loucos têm dificuldade em acreditar nela. Pois ela pressupõe que Deus estava vivo uma vez e de alguma forma pereceu; morto, aparentemente, por aqueles que não queriam que Ele sobrevivesse. A vontade mais forte deles pôde triunfar sobre a d'Ele e, por isso, a vida eterna deu lugar à morte. E, com o Pai, morreu também o Filho.

8. Os adoradores da morte podem ter medo. E, não obstante, pensamentos como estes podem ser amedrontadores? Se eles percebessem que é apenas nisto que acreditam, seriam liberados imediatamente. E tu lhes mostrarás isto hoje. Não há morte e nós renunciamos a ela agora sob todas as formas, para a salvação dele e para a nossa própria salvação também. Deus não fez a morte. Por isto, qualquer forma que ela assuma tem de ser ilusão. É esta posição que tomamos hoje. E nos é dado olhar para além da morte e ver, adiante, a vida.

9. Abençoa nossos olhos hoje, Pai Nosso. Somos Teus mensageiros e queremos olhar para o reflexo glorioso de Teu Amor que resplandece em todas as coisas. Vivemos e nos movemos em Ti apenas. Não estamos separados de Tua vida eterna. A morte não existe, pois a morte não é a Tua Vontade. E nós habitamos no lugar aonde Tu nos colocaste, na vida que compartilhamos Contigo e com todas as coisas vivas, para sermos iguais a Ti, e partes de Ti para sempre. Nós aceitamos Teus Pensamentos como nossos e nossa vontade está eternamente em unidade com a Tua. Amém.

*

COMENTÁRIO:

Explorando a LIÇÃO 163

Caras, caros,

Vocês certamente já pensaram no que acontece com uma pessoa que morre. Já passaram pela experiência de um ente querido falecer, não é mesmo? E enfrentaram o luto e toda a tristeza que adveio dele. E ouviram todas as manifestações de consolo e de estímulo. E lhes pareceu que nada fazia mais sentido nenhum, não é?

No entanto, talvez ainda não tenham pensado a sério a respeito de sua própria morte, a respeito do que esperam que aconteça quando chegar sua hora, mas creio que não há razão para qualquer preocupação com este assunto. Pelo menos para quem quer que acredite na vida. Que perceba a vida como uma experiência que se renova a cada instante, independentemente do que aconteça.

É disto que vamos falar a partir das práticas com a ideia que o Curso nos traz hoje.

"Não há morte. O Filho de Deus é livre."

A ideia para as práticas de hoje, como já vimos mais de uma vez, vem bem a calhar para quem em algum momento já entrou em contato com as ideias do livro A Escola dos Deuses, de Elio D'Anna, de que já falei aqui algumas vezes. Mas não é necessário ter lido o livro para aproveitar também do ensinamento que as práticas com ela podem nos trazer. 

Voltando ao livro, porém, há que se pensar que um de seus pontos centrais, assim como no ensinamento do Curso, está na ideia de que é necessário questionarmos a crença, segundo a qual a morte é inevitável. Uma ideia que nos foi, é e continua a ser, incutida desde crianças. Quem sabe até desde antes de nascermos para esta experiência ilusória de vida num corpo. 

Vejamos pois o que a lição tem em comum com o que o livro pede que questionemos. Como lhes propus no comentário de anos passados, a questão continua a ser a mesma. 

Como falar de liberdade para quem acredita em morte, "na morte"? Que liberdade pode existir para alguém, se sua crença é a de que, mais dia menos dia, seu destino vai ser a morte? Ou como dizer para alguém que a única realidade neste mundo é, de fato, o sonho? Não aquele que temos enquanto dormimos, nem aquele que sonhamos acordados, e não despertos. Mas aquele que é o combustível que nos move. Só por um sonho, nascido de nossa vontade de nos conhecermos, de conhecermos - ou de voltarmos à consciência permanente da presença dela em nós - a divindade interior que nos inspira e move, vivemos. 

É por isso que a ideia da existência da morte - e de sua inevitabilidade - é uma grande ameaça à liberdade. Não podemos ser livres de fato, enquanto acreditarmos na morte. A morte só pode existir para quem acredita haver algo de real, algo de verdadeiro, no tempo. Para alguém que, em algum momento, de sua vida acredita que agora, com esta idade, seja ela qual for, com este tanto de anos vividos, já não dá para começar nada de novo. Já não dá para sonhar. Sim, sim, sempre há tempo para se começar de novo, seja lá qual for o sonho, seja qual for o projeto ou o plano. Depois de Santiago de Compostela, pensei, ao voltar, que poderia aprender a surfar, o que acham? É muito tarde depois dos 70 anos?

Isso me lembra de que quando vim do sul para São Paulo, conheci, entre outras, uma pessoa, um menino, ele tinha dezoito naquela época, que falava que seu maior medo, depois da morte, era envelhecer. Eu tinha vinte e nove, indo para os trinta e já era um velho para ele. Que dizia não se imaginar com minha idade, ou mais velho ainda. Lá já se vão 44 anos e ele chegou aos 62. E passou, há algum tempo, no ano do início da pandemia, pela experiência da Covid-19, 60 dias UTI, intubação, traqueostomia, diálise porque a medicação afetou o funcionamento de seus rins. Mas saiu e está se recuperando. Está agora 33 anos mais velho do que eu era à época. Qual será seu maior medo hoje? A morte?

Cortella diz que gente não fica velha. Quem fica velho é sapato, eletrodoméstico, roupa. Nós, de acordo com ele, somos sempre a cada momento a versão mais nova de nós mesmos e de nós mesmas. Basta deixarmos de lado a ideia da velhice e da morte. Mas é preciso que acreditemos para valer que a morte não existe, como a ideia que o Curso pede que pratiquemos hoje.

Não existe morte! O Curso afirma isto com todas as letras. Mais, ele diz também que não há nenhum mundo. E só poderemos ser livres, de verdade, quando reconhecermos como verdadeiras estas afirmações. Pois não seremos livres, enquanto pairarem sobre nossas cabeças a ideia de que caminhamos inexoravelmente para o fim da vida e a de que há alguma coisa de valor, que possamos querer, neste mundo de ilusões.

O Filho de Deus é livre. Eu sou como Deus me criou. Não há morte. Não há nada a temer. Deus vai comigo aonde eu for. Se me defendo, sou atacado. O poder de decisão é meu. Recuarei e permitirei que Ele me mostre o caminho.

Eis aí algumas ideias que já praticamos algumas vezes - alguns e algumas de nós várias vezes. Quantos e quantas de nós, de fato, já as assumiram e incorporaram a sua experiência de vida como verdades que podem fazer ver o mundo de modo diferente? Verdades que podem mostrar um mundo perdoado, porque apenas ilusório, efêmero, passageiro? Um mundo que é apenas fruto de uma percepção equivocada, que muda ao sabor das impressões dos sentidos.

Não há morte. Tudo o que existe é vida e vida abundante e plena que se multiplica de uma miríade de formas diferentes nas aparências que vemos, tocamos, provamos, ouvimos e cheiramos. 

Não há morte. E só por isso podemos ser livres.  

Todo o medo que nos mantém acorrentados e acorrentadas e presos e presas a um mundo de ilusões, e nos impede de ser o que somos nas mais variadas circunstâncias e a maior parte do tempo de nossa vida, desaparecerá como que por um passe de mágica, quando acreditarmos, de verdade, na ideia que o Curso nos convida a praticar hoje. 

Não há morte. Ora, todo o medo que experimentamos na ilusão a que chamamos de vida se origina da ideia de que somos mortais, perecíveis, frágeis, vulneráveis, passíveis de ataque e destrutíveis, passageiros e passageiras, como tudo o que vemos neste mundo. Afinal, já "vivemos" o bastante para saber que tudo aquilo que tocamos hoje amanhã pode deixar de existir na forma. Pois "tudo muda o tempo todo no mundo", conforme diz a canção. Mas, e se, de fato, não há morte, e se acreditássemos mesmo nisto, com certeza não haveria nada a temer, ou haveria? 

O Filho de Deus é livre. É claro que, se o que nos aprisiona e nos mantém acorrentados e acorrentadas à ilusão é o medo da morte, se aprendermos que não há morte, voltamos a experimentar a liberdade, voltamos a ser livres como sempre fomos. Pois o limitado e prisioneiro é apenas uma ideia equivocada de nós mesmos e de nós mesmas, uma ilusão que pensamos viver e que ocupa o lugar legítimo do Filho de Deus, enquanto acreditamos na separação. Não é aquilo que nós mesmos e nós mesmas somos que vive esta ilusão. É um ego, um falso eu, uma entidade que não existe, ilusória, assim como a morte.

Ao praticar com dedicação, com disposição e alegria a ideia de hoje, vamos deixar que o Filho de Deus em nós se apresente e assuma o lugar usurpado - aparentemente com nossa concordância - por um ser que não existe, um ser cuja existência se baseia apenas na crença equivocada em uma separação que também não existe, que inventou, na ilusão, a ideia de que podemos ser diferentes daquilo que somos verdadeiramente, esquecendo-nos de que somos, e seremos sempre, como Deus nos criou, conforme vimos e praticamos com a lição de ontem. 

A ideia que praticamos hoje, mais uma vez, tem de servir para trazer a cada um e a cada uma de nós a realidade que vamos encontrar em nossos dias, em nossa vida, quando escolhermos o que queremos experimentar. Precisamos nos lembrar sempre, constante e continuamente, a todo instante, em todos os instantes, que são nossas crenças, nossos pensamentos e emoções que materializam os fatos em nossa vida. 

É por isso que a liberdade só pode vir para quem não acredita na morte. Esse, ou essa, está sempre e em todos os momentos construindo sua vida a partir do sonho, de sua imortalidade. Aquele, ou aquela, que acredita na morte não é livre, porque os fatos que suas crenças, pensamentos e emoções materializam em sua vida servem para confirmar a inevitabilidade da morte. Quer dizer, quando escolhemos nossas crenças a vida, e o Universo todo com ela, se move na direção da confirmação delas. 

O que queremos, então? A vida sem fim, a imortalidade? A liberdade? Ou a morte? A escravidão?

Às práticas?

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Aprendamos a devolver ao mundo sua neutralidade

 

LIÇÃO 162

Eu sou como Deus me criou.

1. Este único pensamento, mantido na mente de forma decidida salvaria o mundo. Vamos repeti-lo de vez em quando, quando alcançarmos outro estágio no aprendizado. Ele significará muito mais para ti à medida que avançares. Estas palavras são sagradas, pois são as palavras que Deus deu em resposta ao mundo que fizeste. A partir delas o mundo desaparece e todas as coisas, vistas nas nuvens sombrias e ilusões fúteis dele, desaparecem assim que se diz estas palavras. Pois elas vêm de Deus.

2. Eis aqui a Palavra por meio da qual o Filho Se tornou a felicidade do Pai, Seu Amor e Sua completude. Aqui se anuncia e se exalta a criação tal como ela é. Não há nenhum sonho que estas palavras não dissipem, nenhuma ideia de pecado e nenhuma ilusão que o sonho contenha que não se desvaneçam diante de sua força. Elas são as trombetas do despertar que ressoam pelo mundo. Os mortos despertam em resposta a seu chamado. E os que vivem e ouvem estes sons nunca verão a morte.

3. Na verdade, aquele que torna suas estas palavras é santo, despertando com elas em sua mente, lembrando-se delas ao longo do dia, trazendo-as consigo à noite quando for dormir. Seus sonhos são felizes e seu descanso seguro, sua segurança está garantida e seu corpo curado, porque ele sempre dorme e acorda com a verdade diante de si. Ele salvará o mundo, porque dá a ele o que recebe cada vez que pratica as palavras da verdade.

4. Hoje praticamos de modo simples. Pois as palavras que usamos são poderosas e não precisam de nenhuma ideia além de si mesmas para mudar a maneira de pensar daquele que as usa. Ela muda de forma tão completa que é agora a sala do tesouro na qual Deus deposita todas as Suas dádivas e todo o Seu Amor, para serem distribuídos ao mundo inteiro, aumentando ao serem dados, mantidos completos porque seu compartilhar é ilimitado. E, desta forma, aprendes a pensar com Deus. A visão de Cristo devolve tua visão salvando tua mente.

5. Nós te exaltamos hoje. É teu o direito à santidade perfeita que aceitas agora. Com esta aceitação, traz-se a salvação para todos, pois quem poderia apreciar o pecado quando santidade como esta abençoa o mundo? Quem poderia se desesperar se a alegria perfeita é tua, acessível a todos como a cura da tristeza e do sofrimento, de toda sensação de perda, e para a liberação completa do pecado e da culpa?

6. E quem não quer ser teu irmão agora; tu, seu redentor e salvador. Quem poderia deixar de te acolher em seu coração com um convite amoroso, ansioso para se unir a alguém igual a si em santidade? Tu és como Deus te criou. Estas palavras dissipam a noite e não há mais escuridão. A luz veio hoje para abençoar o mundo. Pois tu reconheces o Filho de Deus e neste reconhecimento está o reconhecimento do mundo.


*

COMENTÁRIO:

Explorando a LIÇÃO 162

Caras, caros, 

Quem sou? O que sou? O que faço aqui? Por que sou como sou? Ou melhor, por que penso ser como sou nesta ilusão de mundo? Que imagem faço de mim mesmo? 

Todas estas perguntas, e outras mais a respeito de nossa própria identidade, da maneira como nos posicionamos no mundo e de como vivemos a vida que recebemos, a vida que temos, passam pelas nossas cabeças de um modo ou de outro, num momento ou noutro, durante o tempo que pensamos viver. Não é mesmo?

O que a ideia que vamos praticar hoje oferece é a resposta definitiva a estas questões. Mesmo que ainda não sejamos capazes de acreditar, chegará o tempo em que reconheceremos a verdade que a ideia nos traz. E seremos capazes de aceitar nossa verdadeira identidade, e viver e construir nossa experiência no mundo, apesar de ilusório, a partir dela.

Vamos, pois, à exploração.

"Eu sou como Deus me criou."

Eu sou como Deus me criou. 

Repetindo a pergunta dos comentários de anos anteriores a esta lição: poderia ser diferente? Como posso pensar que de alguma maneira sou capaz de alterar a Criação? De mudar, macular, comprometer e pôr em risco a alegria, a paz e a felicidade completas e perfeitas, que são a Vontade de Deus para todos, todas, para cada um e cada uma de nós?

Vale a pena dedicarmos um instante à reflexão a respeito de algumas perguntas, como as acima, que podemos fazer a nós mesmos, a nós mesmas. Ou estas que já vimos e ouvimos mais de uma vez, então:  Vocês já se deram conta de que cada um, e cada uma, de nós só ouve aquilo que quer ouvir? E apenas no momento em que escolhe, se decide a, ouvir? Há uma explicação para isso, não acham?

Isto tem a ver, é claro, com o livre arbítrio. Tem a ver com a decisão que tomamos de aprender alguma coisa ou de ouvir o que alguém, próximo a nós ou não, diz. Mas, sobretudo, tem a ver com nossa decisão de dar ouvidos ou não à Voz por Deus em nós mesmos, em nós mesmas.

Deus, o divino, o espírito ou qualquer nome que queiramos dar Àquela Ideia que nos transcende e que transcende nossa experiência de corpos e de matéria, de percepção e de sentidos, tem sempre uma forma particular de falar com cada um e cada uma de nós. E cada um e cada uma de nós decide ouvi-Lo num momento particular de sua experiência.

É por isso que não podemos nos enganar nunca acreditando que aquilo que dizemos a uma pessoa em particular ou a um grupo de pessoas, independentemente das palavras que usemos, é exatamente aquilo que a pessoa ou as pessoas no grupo vão entender - porque as palavras têm sentidos diversos para diferentes pessoas. Ou que cada uma das pessoas que ouve o que dizemos entende exatamente da mesma forma que nós. Isto é, da forma que gostaríamos que entendesse. Ou do modo que entendemos ter dito aquilo que dissemos.

Isto não acontece quase nunca deste modo. E por quê? Porque todos nós usamos filtros individuais, particulares, que desenvolvemos a partir de nosso próprio experimentar do mundo ao longo do tempo. Assim é que tudo o que vemos, ouvimos, cheiramos, tocamos ou provamos recebe um significado que busca apenas confirmar aquilo que acreditamos a respeito de nós mesmos e de nós mesmas, do mundo e de tudo o que experimentamos nele.

Em geral, em razão de querermos que a(s) outra(s) pessoa(s) veja(m) da mesma forma que vemos, imaginamos que só há um modo de ver: o nosso. E nos aferramos à ideia de que a(s) outra(s) pessoa(s) deveria(m) ser capaz(es) de entender o nosso ponto de vista. E muitas vezes nos frustramos apenas porque pensamos que o outro, ou a outra, entendeu tudo errado, ou que não entendeu nada do que queríamos dizer.

É para implementar uma melhoria em nossas condições de comunicação neste mundo que vamos praticar a ideia de hoje. Uma ideia que - quem sabe? - pode nos dar  um instante único de uma compreensão comum. Uma ideia que quer - e pode, e vai - nos devolver à condição original de Filhos de Deus, uma ideia que já vimos e praticamos antes. Uma das ideias mais importantes que precisamos aprender, e apreender, para caminhar na direção de alcançar - apesar de inalcançável, como já vimos - o objetivo do autoconhecimento que nos propõe o  Curso, durante nossa curta experiência neste mundo de ilusões.

Como o Curso diz, ao mesmo tempo em que é importante para que busquemos alcançar o objetivo do Curso, a ideia que praticamos hoje é também um dos mais poderosos instrumentos de que podemos nos valer para dissipar todas as ilusões do mundo, eliminando com elas nossa necessidade de interpretação e devolvendo ao mundo, e às coisas nele, a neutralidade original, que não depende de nosso julgamento, nem dos filtros de nossa percepção.

E voltando mais uma vez às perguntas feitas logo no início de nossa exploração da ideia de hoje: alguém acha que faz diferença para um copo qualquer dizer-se a ele (ou pensar-se dele) que ele é grande, pequeno, verde ou incolor, de vidro ou de plástico, que está cheio, meio cheio ou meio vazio? Ou mesmo que faça alguma diferença para aquilo que o objeto é, em essência, que se dê a ele o nome de copo ou o de vaso, ou que se o chame simplesmente de um recipiente utilizado para se armazenar (ou para beber) líquidos, se este for o fim para o qual o utilizamos? Ele também pode servir, para usar o mesmo exemplo dado em anos passados, como um instrumento de medida, numa receita.

O mundo, e tudo o que existe nele, é neutro. Já ouviram isto antes? E "eu sou como Deus me criou"? Isto é tudo o que precisamos saber - e praticar muito, mas muito mesmo - para mudar por completo nossa forma de pensar acerca de nós mesmos e de nós mesmas e a respeito do mundo e de tudo o que nos cerca. Pois isto, esta ideia, devolve a cada um e a cada uma de nós a condição original de Filho, ou Filha, de Deus e a unidade com tudo e com todos. E devolve ao mundo sua condição original de neutralidade, de simples instrumento de que nos podemos valer para experimentar o que somos em e com Deus.

É para aprender isto que praticamos hoje. 

E, uma vez que o mundo aparentemente não nos dá a alegria que gostaríamos de viver [porque nada no mundo pode ser duradouro, eterno, tudo nele é efêmero e muda o tempo todo], da forma como o vemos, podemos nos perguntar também: em que medida queremos mudar nosso modo de ver? A resposta a esta questão pode trazer luz aos resultados das escolhas que fazemos, iluminando também as razões pelas quais vivemos as experiências que vivemos. Pois como todos e todas já estamos cansados e cansadas de saber, ou de ouvir dizer, o mundo só muda quando - e se - mudamos.

Às práticas?

quarta-feira, 10 de junho de 2026

"Crer para ver" é a lógica correta, e não o contrário

 

LIÇÃO 161

Dá-me tua bênção, Filho santo de Deus.

1. Hoje praticamos de modo diferente e assumimos uma posição diante de nossa raiva, a fim de que nossos medos possam desaparecer e oferecer espaço para o amor. A salvação está aqui nas palavras sinceras com que praticamos a ideia de hoje. Aqui está a resposta à tentação, que não pode nunca deixar de acolher o Cristo no lugar em que medo e raiva predominavam antes. Aqui se completa a Expiação, ultrapassa-se o mundo com segurança e o Céu é restituído imediatamente. Aqui está a resposta da Voz por Deus.

2. A abstração completa é a condição natural da mente. Mas uma parte dela não é natural agora. Ela não olha para todas as coisas como uma só. Em lugar disso, ela vê apenas fragmentos do todo, pois apenas deste modo ela poderia inventar o mundo imperfeito que vês. A finalidade de todo o ver é te mostrar aquilo que desejas ver. Todo o ouvir apenas traz a tua mente os sons que queres ouvir.

3. Assim se criaram as particularidades. E agora são as particularidades que temos de usar ao praticar. Nós as damos ao Espírito Santo para que Ele possa empregá-las para um propósito que seja diferente daquele que lhes demos. Contudo, Ele só pode usar o que fizemos para nos ensinar a partir de um ponto de vista diferente, de forma que possamos ver uma utilidade diferente para todas as coisas.

4. Um irmão é todos os irmãos. Cada mente contém todas as mentes, pois todas as mentes são uma só. Esta é a verdade. Mas estes pensamentos deixam claro o significado da criação? Estas palavras trazem com elas perfeita clareza para ti? O que parecem ser exceto sons vazios, belas talvez, corretas em sentimentos, mas fundamentalmente não compreendidas nem compreensíveis. A mente que ensinou a si mesma a pensar de forma particular não pode mais apreender a abstração no sentido de que ela é todo-abrangente. Precisamos ver um pouco para aprender muito.

5. Parece ser o corpo que sentimos limitar nossa liberdade, fazer-nos sofrer e, por fim, extinguir nossa vida. Mas corpos são apenas símbolos para uma forma concreta de medo. O medo, sem símbolos, não pede nenhuma reação, pois os símbolos só podem representar o sem sentido. Por ser verdadeiro, o amor não precisa de nenhum símbolo. Mas o medo, por ser falso, se prende às particularidades.

6. Corpos atacam mas mentes não. Esta ideia é lembrança de nosso livro texto, onde é enfatizada com frequência. É esta a razão pela qual corpos se tornam símbolos de medo facilmente. Insistiu-se muitas vezes contigo para olhares além do corpo, pois a visão dele apresenta o símbolo do "inimigo" do amor que a visão de Cristo não vê. O corpo é o alvo para o ataque pois ninguém pensa odiar uma mente. Porém, o que a não ser a mente determina que o corpo ataque? Que outra coisa poderia ser a sede do medo exceto aquilo que pensa no medo?

7. O ódio é particular. Tem de haver algo a ser atacado. Tem-se de perceber um inimigo de tal forma que ele possa ser atacado e visto e ouvido e, por fim, morto. Quando o ódio pousa sobre algo, ele exige a morte com tanta certeza quanto a Voz de Deus anuncia que a morte não existe. O medo é insaciável e absorve tudo o que seus olhos veem, vendo-se a si mesmo em tudo, forçado a se voltar contra si mesmo e a destruir.

8. Aquele que vê um irmão como um corpo o vê como símbolo do medo. E atacará porque o que vê é seu próprio medo fora de si mesmo, pronto para atacar e clamando para se unir a ele novamente. Não te deixes enganar pela intensidade da raiva que o medo projetado tem de gerar. Ele uiva, em fúria, e arranha o ar na esperança desvairada de poder alcançar seu autor e devorá-lo.

9. É isto que os olhos do corpo veem em alguém a quem o Céu estima, a quem os anjos amam e a quem Deus criou perfeito. Esta é a realidade dele. E, na visão de Cristo, sua beleza se reflete de uma forma tão sagrada e tão linda que dificilmente poderias resistir a te ajoelhares a seus pés. Porém, em vez disso, tomarás a mão dele pois és igual a ele na visão que te vê assim. O ataque a ele é um inimigo para ti, pois não perceberás que tua salvação está nas mãos dele. Pede-lhe apenas isto e ele te dará. Pede-lhe que não simbolize teu medo. Tu pedirias que o amor destruísse a si mesmo? Ou queres que ele te seja revelado e te liberte?

10. Hoje praticamos de uma forma que tentamos anteriormente. Tua prontidão está mais próxima agora e hoje chegarás mais perto da visão de Cristo. Se estiveres atento para alcançá-la, serás bem-sucedido hoje. E, uma vez que fores bem-sucedido, não estarás mais disposto a aceitar as testemunhas que os olhos de teu corpo fazem surgir. O que verás entoará para ti antigas melodias de que te lembrarás. Tu não estás esquecido no Céu. Não queres te lembrar dele?

11. Escolhe um irmão, símbolo dos demais, e pede a salvação a ele. Vê-o, em primeiro lugar, tão claramente quanto puderes, na mesma forma com a qual estás acostumado. Vê o rosto dele, suas mão e pés, sua roupa. Observa o sorriso dele e vê gestos familiares que ele faz com tanta frequência. Em seguida pensa nisto: o que vês agora esconde de ti a visão daquele que pode perdoar todos os teus pecados, cujas mãos sagradas podem arrancar os cravos que trespassam as tuas e erguer a coroa de espinhos que colocaste sobre tua cabeça ensanguentada. Pede-lhe isto para que ele possa te libertar:

Dá-me tua bênção, Filho santo de Deus. Eu quero te ver
com os olhos de Cristo e ver em ti minha inocência perfeita.

12. E Aquele Que invocaste te atenderá. Pois Ele ouvirá a Voz por Deus em ti e responderá com tua própria voz. Olha agora para ele, a quem vês apenas como carne e osso, e reconhece que Cristo vem a ti. A ideia de hoje é tua saída segura para a raiva e para o medo. Certifica-te de a usares imediatamente, caso sejas tentado a atacar um irmão e perceber o símbolo de teu medo nele. E o verás subitamente transformado de inimigo em salvador, de demônio em Cristo.

*

COMENTÁRIO:

Explorando a LIÇÃO 161

Caras, caros,

Por que razão ainda nos acreditamos pessoas miseráveis, parcas de poder, de vontade, incapazes de modificar qualquer situação difícil que se apresente? 

Por que ainda acreditamos que o mundo é cruel e que tudo o que ele faz é para nos magoar e ferir, como se o mundo não fosse absolutamente neutro, sem poder nenhum para nada, a não ser quando lhe damos o poder sobre qualquer coisa?

Aliás, por que ainda acreditamos que existe um mundo? Ou que é preciso melhorá-lo?

Podemos refletir acerca de todas estas questões enquanto praticamos com a ideia que o ensinamento nos traz para hoje e, quem sabe, até encontrar alguma resposta para elas. Quem sabe até possamos chegar ao entendimento das razões por que acontece tudo o que acontece. 

Vamos tentar? 

"Dá-me tua bênção, Filho santo de Deus."

Vamos encontrar, uma vez mais, na ideia que o Curso nos oferece para as práticas de hoje, a todos, todas, a cada um e a cada uma de nós, a única saída possível para o inferno que pensamos viver: o aprendizado da visão de Cristo. É neste aprendizado, e em nossas práticas com a ideia para chegar a ele, que vamos encontrar o meio de pedir - e acreditar que receberemos - que a visão de Cristo nos seja dada, para que nos tornemos capazes de olhar para tudo e para todos como um só, como partes nossas que não estão separadas de nós. Para podermos nos tornar íntegros. Melhor dizendo, para podermos voltar a nos perceber íntegros e íntegras. 

Tudo o que existe é parte de nós e nos completa. Da mesma forma que o Curso ensina que "o Próprio Deus é incompleto sem mim", precisamos nos perceber íntegros e íntegras em nós mesmos, em nós mesmas, com tudo o que está a nossa volta e faz parte de nossa vida. Isto se quisermos corrigir a percepção que, orientada pelo ego, quer que pensemos ser incompletos e incompletas, ou que pensemos que é possível que sejamos incompletos e incompletas, cada vez que excluímos alguma coisa ou alguém de nossa vida. Ou cada vez que alguma coisa sai, ou alguém resolve sair aparentemente de nossa vida.

De acordo com o que o Curso ensina, não há nenhuma particularidade na visão de Cristo. A partir dela somos capazes de perceber que tudo e todos, o tempo todo e a cada momento, cumprem apenas o papel que lhes cabe no plano de Deus para a salvação. É também a partir dela que podemos compreender que tudo o que vemos é apenas uma interpretação que fazemos da realidade aparente, por e para nossa percepção equivocada. As práticas ensinam que podemos mudar isto valendo-nos da visão de Cristo.

Ainda de acordo com o que o Curso ensina, assim como é impossível não acreditarmos naquilo que vemos, é igualmente impossível ver algo em que não acreditamos. Pois nossa percepção - a de todos, todas, a de qualquer um e a de qualquer uma de nós - se constrói a partir da(s) experiência(s), que leva(m) à(s) crença(s) e a(s) constrói(oem). 

Precisamos, porém, ter em mente de forma bem clara que percepção e consciência são coisas diferentes, muito embora usemos a palavra percepção indistintamente para nos referirmos tanto à consciência quanto à interpretação daquilo de que tomamos consciência. A lógica correta, para quem se acredita espírito e não só corpo, é "crer para ver", e não o contrário, como quer o ego.

Precisamos aprender e ter bem claro para nós mesmos e para nós mesmas, e em nós, o tempo todo, que tudo o que percebemos é apenas nossa própria interpretação [normalmente orientada na maioria das vezes pelo ego] daquilo que vemos, daquilo que projetamos no mundo e que tomamos por realidade, ou daquilo que experimentamos a partir dos sentidos. Pois a consciência não necessita da percepção nem das crenças, nem das imagens.

Daí, a necessidade de aprendermos a usar a visão de Cristo para abandonar de uma vez por todas a interpretação que fazemos do mundo e das coisas do mundo a partir do sistema de pensamento do ego. Como já vimos, o mundo - e tudo e todos que existem nele - é neutro. Apenas nós podemos lhe dar valor e significado.

Daí a necessidade das práticas. 

A elas?

terça-feira, 9 de junho de 2026

Estamos sempre no lugar certo, seja indo ou voltando

 

LIÇÃO 160

Estou em casa. O medo é o estranho aqui.

1. O medo é um estranho para os caminhos do amor. Identifica-te com o medo e serás um estranho para ti mesmo. E, desta forma, te tornas desconhecido para ti. Aquilo que é teu Ser continua a ser um estranho para a parte de ti que pensa ser real, mas diferente de ti mesmo. Quem poderia ser são em tal circunstância? Quem a não ser um louco poderia acreditar que é aquilo que não é se decidir contra si mesmo.

2. Há um estranho no meio de nós, que veio de uma ideia tão estranha à verdade que fala uma língua diferente, olha para um mundo que a verdade não conhece e compreende aquilo que a verdade considera sem sentido. Mais estranho ainda, ele não reconhece aquele a quem vem e ainda afirma que o lar dele lhe pertence, enquanto que aquele que está em casa é agora o estranho. E, não obstante, quão fácil seria dizer: "Este é meu lar. Meu lugar é aqui e não sairei porque um louco diz que devo".

3. Que razão existe para não se dizer isto? Qual poderia ser a razão exceto que convidaste este estranho a entrar para tomar teu lugar e permitir que fosses um estranho para ti mesmo? Ninguém se permitiria ser despejado de forma tão desnecessária, a menos que pensasse haver outro lar mais adequado a seus gostos.

4. Quem é o estranho? É o medo ou és tu que és inadequado ao lar que Deus proporcionou a Seu Filho? O medo é d'Ele Mesmo, criado a Sua semelhança? É ao medo que o amor completa e por que é completado? Não existe nenhum lar que possa abrigar o amor e o medo. Eles não podem coexistir. Se tu és real, então o medo tem de ser ilusão. E, se o medo é real, então tu não existes em absoluto.

5. Com que simplicidade, então, a questão se resolve. Quem tem medo apenas nega a si mesmo e diz: "Eu sou o estranho aqui. E, por esta razão, deixo meu lar para alguém mais parecido comigo do que eu mesmo e dou a ele tudo o que eu pensava me pertencer". Agora, porque é inevitável, ele está exilado, sem saber quem é, inseguro acerca de todas as coisas menos desta: que ele não é ele mesmo e que seu lar lhe foi negado.

6. O que ele busca agora? O que pode achar? Um estranho para si mesmo não pode achar nenhum lar seja qual for o lugar em que possa procurar, porque tornou impossível a volta. Seu caminho está perdido, a não ser que um milagre o descubra e lhe mostre imediatamente que ele não é nenhum estranho. O milagre virá. Pois o Ser dele permanece em seu lar. Ele não solicitou nenhum estranho e não aceitou nenhum pensamento estranho para ser Ele Mesmo. E chamará o que Lhe é Próprio para Si Mesmo em reconhecimento daquilo que Lhe pertence.

7. Quem é o estranho? Ele não é aquele por quem teu Ser não chama? Agora tu és incapaz de reconhecer este estranho em teu meio, pois tu lhe deste teu lugar legítimo. No entanto, teu Ser é tão seguro do que Lhe pertence quanto Deus de Seu Filho. Ele não pode ficar confuso acerca da criação. Ele tem certeza do que Lhe pertence. Nenhum estranho pode se interpor entre o conhecimento d'Ele e a realidade de Seu Filho. Ele não conhece estranhos. Ele está seguro acerca de Seu Filho.

8. A certeza de Deus basta. O lugar d'Aquele Que Ele conhece como Seu Filho é aquele no qual Ele estabelece Seu Filho para sempre. Ele responde a ti, que perguntas: "Quem é o estranho"? Ouve Sua Voz te assegurar, segura e serenamente, que não és um estranho para teu Pai e que teu Criador também não se tornou estranho para ti. Aquele a quem Deus se une continua a ser um só para sempre à vontade n'Ele, sem ser estranho para Si Mesmo.

9. Hoje damos graças por Cristo vir procurar no mundo aquilo que Lhe pertence. A visão d'Ele não vê nenhum estranho, mas vê os Seus e se une a eles alegremente. Eles O veem como um estranho, pois não se reconhecem. Porém, quando Lhe dão as boas vindas, eles se lembram. E Ele, mais uma vez, os conduz bondosamente a casa, onde é o lugar deles.

10. Cristo não esquece nenhum. Ele não deixa de te dar nenhum para te lembrares, a fim de que teu lar possa ficar completo e perfeito tal como foi criado. Ele não te esquece. Mas tu não te lembrarás d'Ele até olhares para todos do modo que Ele olha. Aquele que nega seu irmão O nega e, desta forma, se recusa a aceitar a dádiva da visão pela qual seu Ser é reconhecido claramente, seu lar é lembrado e a salvação chega.


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COMENTÁRIO:

Explorando a LIÇÃO 160

Caras, caros,

O que nos impede de viver plenamente cada um e todos os momentos que a vida nos apresenta? Não será o fato de não sabermos parar de imaginar como esta ou aquela situação poderia ser diferente, se...? Ou não seria o fato de no momento em que estamos nalgum lugar, fazendo alguma coisa, já tenhamos nossos pensamentos voltados para o que faremos quando isto acabar? Ou, ainda, não pode ser o fato de que começamos alguma coisa já com os olhos voltados para o fim daquilo, para os resultados que vamos obter do que fazemos? Ou com tudo o que nos vai ser possível fazer a partir dos resultados que esperamos obter?

Na verdade, parece-me, nunca nos damos por satisfeitos. Nunca, ou quase nunca, nos sentimos em casa. Mesmo quando em casa. Há uma espécie de comichão que nos atormenta, algo que em geral não sabemos definir, e que nos leva a nunca viver o por inteiro instante que se apresenta. Deixamos, muitas vezes, de experimentar o "instante santo", de que fala o Curso, pela absoluta incapacidade de aquietar-nos, de embarcar na viagem a que o momento quer nos levar.

É por isso que precisamos dar toda a atenção de que somos capazes para a ideia com a qual vamos praticar neste dia. Quem sabe aprendamos com ela que não há lugar no mundo que não seja nossa casa e que, como dizia uma lição anterior, "não há nada a temer".

Vamos à exploração?

"Estou em casa. O medo é o estranho aqui."

Hoje vamos, mais uma vez, do mesmo modo que já praticamos em anos passados, buscar aprender a ficar à vontade na casa de Deus, que é o nosso lar. Pois a ideia que vamos praticar nos permite afastar todo o medo que ronda nossa casa, que ameaça nosso lar. Mas apenas na ilusão.

Na verdade, podemos ficar à vontade com o que somos também, pois somos a casa de Deus, Seu lar, da mesma forma que Ele é o nosso. E, quando nos sentimos à vontade, o que experimentamos só pode ser paz, alegria, serenidade. Ou pode passar algum temor pela cabeça de quem se sente inteiramente em paz?

É por isso que nada de estranho pode nos ameaçar quando estamos em casa, quando estamos à vontade com o que somos, em Deus, com Ele. É a isto que se destina nossa prática hoje. Como dizia uma lição anterior, "não há nada a temer". É preciso que aprendamos, a partir das lições que o Curso oferece, a nos sentir em casa, a ficar à vontade, onde quer que estejamos no mundo. Pois Deus está sempre conosco, aonde quer que estejamos. E nós vivemos e nos movemos n'Ele. 

O Curso ensina que não há nenhuma possibilidade, em nenhum momento, de estarmos em qualquer lugar diferente daquele em que estamos. Ensina também, repetindo para reforçar, que onde quer que estejamos estamos em Deus. E que Ele vai conosco aonde formos. Também não podemos ser nada, nem sequer uma zilionésima fração, qualquer que seja ela, diferentes daquilo que somos o tempo inteiro, mesmo quando ainda não temos consciência disto.

Isto é, dizendo de outro modo, por menor que seja a nossa consciência de nós mesmos e de nós mesmas, e daquilo que somos em Deus e com Ele/Ela, estamos e nos movemos n'Ele/Ela o tempo inteiro. E seja qual for o nome que aprendemos para nos referirmos a Ele, repetindo uma vez mais, Ele/Ela vai conosco aonde formos [mais uma ideia que já praticamos de vários modos diferentes em lições anteriores].

Guimarães Rosa diz isto, a certa altura em seu livro Grande Sertão: Veredas, da seguinte maneira:

No ir - seja até onde se for - tem-se de voltar: mas, seja como for, que se esteja indo ou voltando, sempre já se está no lugar, no ponto final.

E Deus conosco. E, afinal de contas, toda a viagem é apenas em direção a nós mesmos, a nós mesmas.

É n'Ele/Ela que nos movemos e tudo o que é real só pode verdadeiramente encontrar sua expressão n'Ele/Ela. E, por mais forte que seja nossa crença na ideia de que podemos estar separados, ou separadas, d'Ele/Ela de alguma forma, sempre seremos, na verdade, apenas aquilo que somos com Ele/Ela e n'Ele/Ela. Não importa o que façamos. Tudo o que fazemos -  e que muda - muda apenas de forma ilusória. Aquilo que somos, em essência, não muda nunca.

Isto não é, pois, razão suficiente para se ficar à vontade? Aonde quer que pensemos estar? Aonde quer que estejamos? Uma vez que só podemos sempre, em qualquer situação ou circunstância, estar aonde estamos, em contato permanente com o que somos, mesmo quando não estamos cientes disso, é certo que já estamos sempre no ponto final. Indo ou voltando. No lugar certo.

Antes de finalizar este comentário, que repete quase que integralmente os de anos anteriores, quero lhes oferecer uma anotação feita após a viagem que fiz há já algum tempo, uma anotação feita na volta, e em cima da leitura do seguinte parágrafo do livro A Escola dos Deuses. Acho que isso também tem a ver com a ideia para as práticas de hoje. 

Elio D'Ana diz o seguinte no livro: 

"Saber que o mundo, a massa, não pode ter vontade [própria] é reconhecer, com o avião já no ar, que não existe piloto, e saber, em poucos instantes, como funcionam todos os instrumentos e assumir o comando do avião." 

Bem... eis-me voltando de Paris para São Paulo, num voo cuja duração prevista era de 10 horas e 55 minutos, tendo embarcado por volta da meia-noite. 

De repente, em pleno ar, em horário indefinido, tu te descobres como aquele que está passando, indo de um lugar a outro e que nenhum dos dois lugares existe verdadeiramente. Não são reais. Pelo menos, não enquanto não chegares a um deles [e mesmo depois de chegares eles não existem a não ser como a experiência ilusória que o mundo nos oferece]. Aparentemente, não há nada a tua frente, nem atrás, nem acima, nem abaixo. Tudo o que ouves é o barulho de motores, de um avião pilotado por alguém que nem sabes se está de fato lá. 

Nem mesmo aquilo que acreditas que és é real. Então, tu te descobres flutuando no ar, ou tens a sensação de estar flutuando. Livre de qualquer preocupação, de qualquer dúvida, de qualquer medo.

Porque aquilo que tu és assume o controle e tu sabes que o que quer que venha a acontecer será o melhor para ti e para todos aqueles com quem compartilhas tua experiência de existir, de viver num lugar, num tempo, mesmo que esta experiência seja apenas ilusória a maior parte do tempo. O fato é que já estás, sempre estás, no lugar aonde tens de estar.

Tu sabes, assim, do nada, que não importa aonde fores, não importa o que fizeres, a viagem, qualquer delas, é sempre na direção de ti mesmo, na direção de tua integridade, de tua completude na luz de que és feito, na luz que é a mesma para ti e para todos. Mesmo para aqueles que não têm, nem buscam de algum modo, a consciência de si mesmos, o dito autoconhecimento. 

E repito aqui a citação de Rosa:

No ir - seja até onde se for - tem-se de voltar: mas, seja como for, que se esteja indo ou voltando, sempre já se está no lugar, no ponto final.

Às práticas?