terça-feira, 19 de maio de 2026

Se queres ver Deus em ação, suspende o julgamento

 

LIÇÃO 139

Aceitarei a Expiação para mim mesmo.

1. Eis aqui o fim da escolha. Pois aqui chegamos à decisão de nos aceitarmos tal como Deus nos criou. E o que é a escolha exceto incerteza acerca do que somos? Não existe nenhuma dúvida que não esteja enraizada nisto. Não existe nenhuma questão que não reflita esta. Não existe nenhum conflito que não envolva a pergunta simples e singular: "O que sou?".

2. No entanto, quem pode fazer esta pergunta exceto alguém que se recuse a reconhecer a si mesmo? Só a recusa em te aceitares pode fazer a pergunta parecer sincera. A única coisa que pode ser conhecida com certeza por qualquer coisa viva é o que ela é. A partir deste ponto de certeza, ela olha para as outras coisas com tanta confiança quanto em si mesma.

3. Incerteza a respeito do que tens de ser é auto-engano em uma escala tão ampla cuja magnitude é difícil de conceber. Estar vivo e não conhecer a ti mesmo é acreditar que estás, de fato, morto. Pois o que é a vida exceto seres tu mesmo e o que a não ser tu pode estar vivo em teu lugar? Quem é o que duvida? De que ele duvida? A quem ele pergunta? Quem pode lhe responder?

4. Ele apenas afirma que ele não é ele mesmo e, por isto, sendo alguma outra coisa, vem a ser um questionador do que é esta outra coisa. Contudo, ele nunca poderia em absoluto estar vivo, a menos que conhecesse a resposta. Se ele pergunta como se não soubesse, ele apenas demonstra que não quer ser a coisa que é. Ele a aceita porque vive; julga contra ela e nega seu valor e decide que não conhece a única certeza pela qual vive.

5. Desta forma, ele se torna indeciso acerca de sua vida, porque nega o que ela é. É para esta negação que necessitas da Expiação. Tua negação não fez nenhuma mudança naquilo que és. Mas tu divides tua mente entre o que conhece e o que não conhece a verdade. Tu és tu mesmo. Não há nenhuma dúvida disto. E, não obstante, tu duvidas. Mas tu não perguntas que parte de ti pode, de fato, duvidar de ti mesmo. Não pode realmente ser uma parte de ti que faz esta pergunta. Pois ela pergunta a alguém que conhece a resposta. Se fosse parte de ti, a incerteza, então, seria impossível.

6. A Expiação cura a estranha ideia de que é possível duvidares de ti mesmo e não ter certeza daquilo que realmente és. Isto é o abismo da loucura. Contudo, ela é a pergunta universal do mundo. O que isto significa a não ser que o mundo é louco? Por que compartilhar sua loucura na crença deplorável de que o que é universal aqui é verdadeiro?

7. Nada daquilo em que o mundo acredita é verdadeiro. O mundo é um lugar cujo propósito é ser um lar aonde aqueles que alegam não conhecer a si mesmos podem vir para perguntar o que é que eles são. E eles virão novamente até que se aceite o tempo da Expiação e eles aprendam que é impossível duvidares de ti mesmo e não estar ciente do que és.

8. Só se pode pedir de ti a aceitação, porque o que és é incontestável. Está estabelecido para sempre na Mente de Deus e na tua própria mente. Está tão além de toda dúvida e questão que perguntar o que tem de ser é toda a prova de que necessitas para mostrar que acreditas na contradição de que não conheces o que não podes deixar de conhecer. Isto é uma pergunta ou uma afirmação que nega a si mesma ao ser afirmada? Não vamos deixar que nossas mentes santas se ocupem com devaneios inúteis tais como este.

9. Temos uma missão aqui. Não viemos para reforçar a loucura em que acreditávamos antes. Não nos esqueçamos da meta que aceitamos. Viemos para ganhar mais do que só a nossa felicidade. O que aceitamos como aquilo que somos revela claramente o que todos têm de ser junto conosco. Olha para eles amorosamente, para que eles possam saber que são parte de ti e que tu és parte deles.

10. É isto que a Expiação ensina, e demonstra que a Unidade do Filho de Deus não é atacada por sua crença de que não sabe o que ele é. Aceita a Expiação hoje, não para mudar a realidade, mas simplesmente para aceitar a verdade acerca de ti mesmo e seguir teu caminho alegrando-te no Amor infinito de Deus. É apenas isto o que nos é pedido para fazer. É apenas isto que faremos hoje.

11. Reservaremos cinco minutos pela manhã e à noite para dedicar nossas mentes a nossa tarefa de hoje. Começamos com esta revisão de qual é nossa função:

Aceitarei a Expiação para mim mesmo,
Pois continuo a ser tal como Deus me criou.

Não perdemos o conhecimento que Deus nos deu quando nos criou iguais a Ele Mesmo. Podemos nos lembrar disto por todos, pois na criação todas as mentes são como uma só. E, em nossa memória, está a lembrança de quão caros são nossos irmãos para nós na verdade, do quanto cada mente é parte de nós, de quão fiéis eles são a nós realmente e de como o Amor de nosso Pai contém todos eles.

12. Em agradecimento por toda a criação, em Nome do seu Criador e de Sua Unidade com todos os aspectos da criação, repetimos nossa consagração a nossa causa a cada hora hoje, enquanto deixamos de lado todos os pensamentos que nos distrairiam de nosso objetivo sagrado. Por alguns minutos, deixa que tua mente se desembarace de todas as teias tolas que o mundo quer tecer em volta do Filho santo de Deus. E aprende a natureza frágil das correntes que parecem manter o conhecimento de ti mesmo distante de tua consciência, à medida que dizes:

Aceitarei a Expiação para mim mesmo,
Pois continuo a ser tal como Deus me criou.

*

COMENTÁRIO:

Explorando a LIÇÃO 139

Caras, caros,

O que todos e todas nós fazemos, ou melhor, quase todos e quase todas nós, sem nos darmos conta na maioria das vezes é nos culparmos por toda e qualquer coisa "ruim", por toda e qualquer adversidade que se apresente a nossa experiência.

Aprendemos desde muito cedo, crianças ainda - talvez em razão de tanto que nos falaram nossos pais, tios, avós e os adultos com quem convivemos em nossas vidas -, a nos culparmos, como se tudo o que fizéssemos estivesse errado o tempo todo, não é mesmo? Pensem bem por alguns instantes, se não foi assim com vocês também.

Por esta razão principalmente é que é muito difícil aceitarmos nossa inocência imaculada, nossa condição de Filhos e Filhas de Deus. É muito difícil acreditarmos que ainda somos como Deus nos criou, sempre seremos e nada vai poder mudar isto.

É disto que trata a ideia que vamos praticar hoje. A ela!

"Aceitarei a Expiação para mim mesmo."  

A lição de hoje busca, mais uma vez, nos lembrar de que ainda somos como Deus nos criou. De um modo ligeiramente diverso daquele a que nos acostumamos. As práticas nos incentivam a aprender a aceitar a Expiação para nós mesmos, para nós mesmas. [Para quem não lembra ou ainda não está familiarizado com a terminologia do Curso, Expiação significa simplesmente o desfazer do erro. Isto é, quando, na ilusão, cometemos qualquer erro - o que significa que julgamos um ou mais de nossos atos -, podemos expiá-lo evitando julgar-nos por aquilo que é apenas um equívoco, parte da grande ilusão que quer que pensemos que somos capazes de errar. Pior: que somos capazes de pecar.].

Na verdade, aceitar a Expiação é entender que não existe erro [que dirá pecado?], apenas a experiência. E, para aproveitar uma vez mais a fala de um dos personagens - uma criança - do conto Campo Geral, de Guimarães Rosa, vejam como Dito se refere ao erro, ou malfeito, aconselhando seu irmão Miguilim, que, certa ocasião, se pôs a perguntar a todos que encontrava de que forma se pode saber se alguma coisa que alguém faz ou tenciona fazer é um malfeito ou bem-feito. 

Depois de chamar a atenção de Miguilim para que parasse com a perguntação, cuidando de não deixar que se pensasse que ele, Miguilim, havia feito alguma coisa errada, Dito lhe diz o seguinte: 

"Olha: pois agora que eu sei, Miguilim. Tudo quanto há, antes de se fazer, às vezes é malfeito; mas depois que está feito e a gente fez, aí tudo é bem-feito..."

Ora, o personagem sabia que, na verdade, a única coisa que podemos fazer é experimentar. O tempo todo. Sempre. E que só antes de fazer alguma coisa é que podemos pensar nela com os pressupostos de boa ou má ação, e sempre e tão somente a partir da percepção que temos. 

A percepção de que somos capazes é que é sempre parcial, porque atrelada aos sentidos e ao corpo. Assim, o único equívoco que podemos fazer é julgar as experiências como certas ou erradas.  O que elas não são. Nunca. São apenas experiências. Neutras. Necessárias ao estar-se, ao perceber-se, num mundo que aparentemente não criamos. Julgá-las é o mesmo que julgar a nós mesmos e a nós mesmas. Daí a necessidade, como a lição diz, de aceitarmos a Expiação para nós mesmos, para nós mesmas.

É claro que isto também se aplica às experiências do outro, da outra, ou outros e outras, que são apenas reflexos daquilo que queremos ver, e que servem para nos apresentar a partes de nós que, ou ainda não somos capazes de ver, perceber, ou não queremos reconhecer em nós. Donde a necessidade de aprendermos a não julgar nada do que vemos no outro, ou na outra. Nem nada do que o outro, ou a outra, faz. Pois fazê-lo é, mais uma vez, apenas julgar a nós mesmos e a nós mesmas.

Enfim, é só o ego, o falso eu, a parte ilusória de nós, a falsa imagem que construímos de nós mesmos e de nós mesmas, a parte de nós mesmos e de nós mesmas que se percebe separada do outro ou da outra, ou dos outros e das outras, e de Deus, que pode ter dúvidas a respeito do que ela, a parte, é. Daí a pergunta: "Quem sou?". Mas nós não somos o ego. Por isto a pergunta só pode ser feita ao que somos. Ao Ser em nós, ao divino em nós. E nossa resposta tem de ser a de quem acredita que ainda é tal como Deus o criou. Pois não existe nada além dele, com Deus e em Deus. 

O que se segue novamente é parte de comentário feito após um questionamento postado por alguém por ocasião da publicação desta lição há alguns anos, e que, acredito, pode servir para nos ajudar a ampliar a reflexão com a ideia para as práticas de hoje.

Respondendo, em certa ocasião, há alguns anos, a um questionamento de um amigo que queria saber por que razão as coisas aparentemente não andam como gostaríamos que andassem, e perguntava se, de acordo com o Curso, tudo o que nos acontece já é "pré-determinado", isto é, se todos vamos chegar ao lugar aonde pensamos que temos de chegar apesar de tudo o que fazemos para adiar a decisão de alinhar nossa vontade à de Deus 

O que eu lhe disse, então, e repito aqui mais uma vez foi:

Os problemas que aparentemente enfrentamos, em geral, se devem ao fato de nos distrairmos de nós mesmos e de nós mesmas. O sofrimento que nos chega só chega quando nos afastamos de nós mesmos e de nós mesmas e, por consequência, de Deus, e nos deixamos envolver pela crença na separação.

Na verdade, tudo aquilo que pensamos ser necessário fazer, todo o planejamento que acreditamos necessário para a vida dar certo [de acordo com aquilo que pensamos que seja 'dar certo'] não tem fundamento à luz do que o Curso ensina. Pois para o Curso, tudo o que precisamos fazer é entregar ao Espírito Santo. Isto é, não fazer nada que atrapalhe o plano de Deus para a salvação.

Para tanto, basta que prestemos atenção ao que nos dizem as lições, ao que nos dizem as experiências por que passamos. Basta que fiquemos atentos às reações que temos quando nos encontramos com as pessoas, quando passamos pelas experiências e pelas situações. Qualquer coisa que nos afaste da alegria, é sinal de que nos deixamos envolver pelo sistema de pensamento do ego, que acredita na separação.

Gostei muito outro dia, já há algum tempo, de uma frase que li num dos livros de Joel Goldsmith, que, me parece, resume o ponto a que precisamos chegar para viver a paz de espírito e a alegria completa e perfeita, que são a Vontade de Deus para nós. A frase, que já compartilhei aqui antes, diz: "Eu não penso em minha vida; eu observo Deus em ação".

Isso, creio, também é uma forma de aceitar a orientação do Curso para não se fazer nada. E é também aceitar a Expiação, entendendo que não há erro. Só existe mesmo é a experiência. Qualquer qualificação que dermos a qualquer experiência é apenas o julgamento do ego, quer para o bem, quer para o mal.

Às práticas?

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Tu te decides pelo Céu, ao abrir mão do julgamento

 

LIÇÃO 138

O Céu é a decisão que tenho de tomar.

1. Neste mundo, o Céu é uma escolha porque, aqui, acreditamos que há alternativas entre as quais escolher. Pensamos que todas as coisas têm um oposto, e que escolhemos o que queremos. Se o Céu existe, tem de haver também um inferno, pois a contradição é o modo com que fazemos aquilo que percebemos e aquilo que pensamos ser real.

2. A criação não conhece nenhum oposto. Mas, aqui, a oposição é parte de ser "real". É esta estranha percepção da verdade que faz a escolha do Céu parecer ser a mesma coisa que a renúncia do inferno. Isto não é realmente assim. Contudo, aquilo que é verdadeiro na criação de Deus não pode entrar aqui até ser mostrado de alguma forma que o mundo possa compreender. A verdade não pode vir a um lugar em que só seria percebida com medo. Pois isto seria o erro segundo o qual se pode trazer verdade às ilusões. A resistência faz com que a verdade seja mal recebida e ela não pode vir.

3. A escolha é a saída evidente para o que se apresenta na forma de opostos. A decisão permite que um dos objetivos contraditórios se torne a meta do esforço e do dispêndio de tempo. Sem a decisão, o tempo é apenas uma extravagância e o esforço desregrado. Ele é gasto para nenhum retorno e o tempo passa sem resultados. Não há sensação de benefício, pois não se realiza nada; não se aprende nada.

4. Tu precisas ser lembrado de que pensas que te defrontas com mil escolhas, quando, realmente, há somente uma a se fazer. E mesmo esta apenas parece ser uma escolha. Não te confundas com todas as dúvidas a que te induziria uma miríade de decisões. Tu tomas apenas uma. E, quanto se toma essa, perceberás que ela não é absolutamente uma escolha. Pois a verdade é verdadeira e nada mais é verdadeiro. Não há nenhum contrário para se escolher no lugar dela. Não há nenhuma contradição para a verdade.

5. A escolha depende do aprendizado. E não se pode aprender a verdade, mas apenas reconhecê-la. A aceitação dela está no reconhecimento e, quando ela é aceita, ela é conhecida. Mas o conhecimento está além das metas que buscamos ensinar na estrutura deste curso. Nossas metas são metas de ensino, a serem alcançadas pelo aprendizado de como alcançá-las, quais são elas e o que elas te oferecem. As decisões são a consequência de teu aprendizado, pois elas se baseiam naquilo que aceitas como a verdade do que és e de quais têm de ser tuas necessidades.

6. Neste mundo loucamente complicado, o Céu parece tomar a forma de escolha, em vez de ser simplesmente o que é. De todas as escolhas que tentas fazer esta é a mais simples, a mais definitiva e o modelo para todas as outras; a única que determina todas as decisões. Se podes decidir as outras, esta permanece não-resolvida. Mas, quando resolves esta, as outras se resolvem com ela, pois todas as decisões apenas escondem esta, assumindo formas diferentes. Eis aqui a escolha definitiva e única na qual se aceita ou se nega a verdade.

7. Por isto, começamos hoje refletindo acerca da escolha para qual se inventou o tempo, a fim de nos ajudar a fazê-la. Tal é seu propósito sagrado, transformado agora pela intenção que lhe deste; a de que ele seja um meio para demonstrar que o inferno é real, que as esperanças se transformam em desespero e a própria vida, no final, tem de ser vencida pela morte. Só na morte se resolvem os opostos, pois acabar com a oposição é morrer. E, deste modo, tem-se de ver a salvação como morte, pois a vida é vista como conflito. Resolver o conflito também é pôr fim a tua vida.

8. Estas crenças loucas podem exercer um domínio de grande intensidade e aprisionar a mente com um terror e uma ansiedade tão fortes que ela não renunciará a suas ideias acerca de sua própria proteção. Ela tem de ser salva da salvação, ameaçada para ficar segura e blindada de forma mágica contra a verdade. E estas decisões se fazem de modo inconsciente, para mantê-las imperturbadas de forma segura; distantes do questionamento e da razão e da dúvida.

9. Escolhe-se o Céu conscientemente. A escolha não pode ser feita até que as alternativas sejam vistas e compreendidas de modo correto. Tem-se de trazer à compreensão tudo o que está velado nas sombras, para ser avaliado de novo, desta vez com a ajuda do Céu. E todos os erros no julgamento que a mente cometeu antes ficam abertos à correção, quando a verdade os anula como infundados. Agora eles ficam sem efeitos. Não podem ser escondidos porque sua insignificância foi reconhecida.

10. A escolha consciente do Céu é tão certa quanto o fim do medo do inferno, quando ele é erguido do escudo protetor da inconsciência e trazido à luz. Quem pode decidir entre aquilo que se vê claramente e o que não se reconhece? Porém, quem pode deixar de fazer uma escolha entre alternativas quando apenas uma é vista como valiosa; a outra como uma coisa totalmente sem valor, apenas um fonte imaginária de culpa e dor? Quem hesita em fazer uma escolha como esta? E nós hesitaremos em escolher hoje?

11. Fazemos a escolha do Céu quando acordamos e passamos cinco minutos seguros de que tomamos a única decisão sã. Reconhecemos que fazemos uma escolha consciente entre o que existe e o que não tem nada a não ser uma aparência de verdade. Seu pseudo-ser, trazido ao que é real, é insignificante e transparente na luz. Ele não contém nenhum terror agora, pois o que se fez enorme, vingativo, impiedoso em ódio, exige escuridão para que se invista medo aí. Agora ele é reconhecido como apenas um equívoco sem importância.

12. Antes de fecharmos os olhos para dormir, esta noite, reafirmamos a escolha que fizemos a cada hora do dia. E, agora, damos os últimos cinco minutos de nosso dia de vigília à decisão com que acordamos. À medida que cada hora passar, declaramos nossa escolha mais uma vez, em um breve momento de dedicado à manutenção da sanidade. E, finalmente, terminamos o dia com isto, reconhecendo que escolhemos apenas aquilo que queremos:

O Céu é a decisão que tenho de tomar. Eu a tomo agora e
não vou mudar de ideia, porque é a única coisa que quero.

*

COMENTÁRIO:

Explorando a LIÇÃO 138

Caras, caros,

Sempre, desde que este espaço foi criado, tenho dito que, como todas e todos sabem, tudo começa com a decisão. Não que a tomada de decisão torne tudo mais fácil, ou que as dificuldades diminuam ao longo do caminho, Não. As coisas podem até se tornar aparentemente mais difíceis durante algum tempo. E por quê? Porque a tomada de decisão contraria o sistema de pensamento do ego, qualquer que seja ela.

Quando nos decidimos por alguma coisa e nos mantemos firmes em nossa decisão, o ego estrila. Porque ele não gosta de ser contrariado. O ego precisa de nossas dúvidas, de nossas indecisões e incertezas para tentar nos convencer de que ele é onipotente, de que ele sabe o que é melhor para nós. O ego se perpetua e garante sua existência por sua capacidade de gerar conflitos. São os conflitos que lhe dão existência. Sem conflitos o ego não existe.

Por isso, é muito importante que emprestemos toda a nossa atenção à ideia que o Curso nos oferece para as práticas de hoje. É esta ideia que pode fazer com que nos aproximemos mais e mais do ser que somos, deixando que o ego pare de fazer seus joguinhos, na tentativa de nos enganar e de impedir que sejamos capazes de perdoar o mundo e tudo o que há nele. E, principalmente, que sejamos capazes de nos perdoar por nossos equívocos, gerados pelo sistema de pensamento do ego.

A ideia, então, é a seguinte:

"O Céu é a decisão que tenho de tomar."

E pronto! 

E só! 

Simples assim! 

Isso é tudo o que preciso fazer!

É tudo o que preciso decidir e escolher! O Céu! Não que isso resolva todas as questões que acredito ter de resolver em minha vida, mas isso me dá o norte. Identifica um rumo, uma direção para onde caminhar. Ou será que todos e todas sabemos em que direção estamos indo hoje em dia? Será que sabemos para onde andamos desde que começamos a buscar tomar consciência de nós mesmos, de nós mesmas? 

O Céu é a decisão que tenho de tomar.

Esta lição traz a ideia que abre todas as portas para a salvação. A salvação individual, a minha, e a tua, a nossa e a do mundo inteiro. Pois como já sabemos, a partir do texto Estabelecer a meta (no Capítulo 17 do livro texto), as coisas todas por que passamos e as escolhas todas que fazemos só podem começar a ter sentido quando nos decidimos pela verdade - o Céu -, alinhando nossa meta à do Espírito Santo, nossa vontade à Vontade de Deus.

O Céu é a decisão que tenho de tomar.

Como já sabemos também, a veracidade de todas as ideias que as lições nos ofereceram até o momento pode ser comprovada pelas práticas com esta ideia que a lição nos oferece hoje. Uma lição de que gosto muitíssimo, como já disse outras vezes. Não que não goste das outras. Ou que goste menos delas. Mas esta tem um apelo muito particular para mim.

E, repito, tomar a decisão pelo Céu não significa que tudo vai se transformar de um momento para outro naquela maravilha, que já vamos entrar e viver no paraíso. Mas significa que resolvemos dar a nós mesmos, a nós mesmas, a oportunidade de experimentar a alegria a partir de tudo o que se apresentar a nossa experiência. Isto é, significa que decidimos abdicar do sofrimento, da dor, do pesar, do infortúnio, das culpas e de todas as consequências do julgamento em favor da alegria e da paz. E é claro que para tanto precisamos também abrir mão do controle.

O Céu é a decisão que tenho de tomar. 

Ao nos decidirmos pelo Céu, abrimos mão do julgamento. E nos preparamos para reconhecer e aceitar a neutralidade do mundo e de tudo e de todos os seres que o habitam, animados ou inanimados. Nesta decisão está também o reconhecimento de que não sabemos nada, um reconhecimento que nos prepara para a aceitação da necessidade da entrega de nossas vidas ao Espírito Santo, ao divino em nós, Àquele que sabe nos conduzir sempre na direção da alegria e da paz completas e perfeitas. Na direção da Vontade de Deus para nós, que é a mesma que a nossa.

Como eu já lembrei antes, em algum ponto do livro texto do Curso, recebemos a informação de que sempre que fazemos qualquer escolha ela se faz entre o Céu e o inferno, entre o Espírito Santo e o ego, ou ainda entre a crucificação e a ressurreição. Dizendo de outra forma, todas as nossas decisões são escolhas que fazemos entre ter razão, a partir do ego, ou ser feliz, a partir da aceitação da Vontade de Deus da alegria e da paz completas e perfeita para nós. 

O Céu é a decisão que tenho de tomar.

A ideia que praticamos hoje é bastante clara acerca de como devemos, ou podemos, conduzir nossas vidas, se quisermos cumprir o papel que nos cabe no plano de Deus para a salvação. Assim como toda caminhada começa com um passo, que vai nos levar, enfim, ao destino, depois de darmos todos os passos necessários naquela direção, nossa busca pelo autoconhecimento, que é a direção na qual os ensinamentos do Curso nos movem, tem de começar com a tomada de decisão. E a decisão a que se refere o Curso com a ideia para as práticas de hoje: 

O Céu é a decisão que tenho de tomar.

Para tomarmos tal decisão, porém, precisamos definir o que queremos. Pois, se aquilo que temos agora é expressão do que somos e nos permite passear livremente pelo mundo, sem que nada nos aprisione, e se é a alegria que nos move na direção do amor que nunca acaba, e que é a única coisa que verdadeiramente existe, podemos dizer que já fizemos a escolha e estamos colhendo os resultados dela, felizes. Mas, se há ainda algum aspecto em nossas vidas com o qual não sabemos lidar, algo que gostaríamos de mudar, então, como nos diz a lição hoje, ainda não tomamos a única decisão que pode nos dar tudo.

As práticas de hoje nos oferecem mais uma nova oportunidade de tomá-la. Para aprendermos, como Miguilim, personagem do conto Campo Geral, de João Guimarães Rosa, "que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro... (...) o certo era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundas. Podia? Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma".

Vamos, então, praticar a alegria para viver o Céu?

domingo, 17 de maio de 2026

Sozinhas, ou sozinhos, nunca poderemos fazer nada

 

LIÇÃO 137

Quando sou curado, não sou curado sozinho.

1. A ideia de hoje continua a ser o principal pensamento em que se baseia a salvação. Pois cura é o oposto de todas as ideias do mundo, que dão ênfase à doença e a estados separados. A doença é um afastamento dos outros e um fechar-se à união. Ela vem a ser uma porta que se fecha sobre um ser separado e o mantém isolado e sozinho.

2. A doença é isolamento. Pois ela parece manter um ser separado de todos os outros, para sentir o que os outros não sentem. Ela dá ao corpo o poder final para tornar real a separação e manter a mente em uma prisão solitária, dividida ao meio e mantida em pedaços por uma parede sólida de carne doente que ela não pode superar.

3. O mundo obedece às leis a que a doença serve, mas a cura funciona independente delas. É impossível que alguém seja curado sozinho. Na doença ele tem de ficar distante e separado. Mas a cura é sua própria decisão de ser uno novamente e aceitar seu Ser com todas as Suas partes intactas e incólumes. Na doença seu Ser parece estar desmantelado e sem a unidade que Lhe dá vida. Mas a cura se realiza quando ele percebe que o corpo não tem nenhum poder para atacar a Unidade universal do Filho de Deus.

4. A doença quer provar que as mentiras têm de ser a verdade. Mas a cura demonstra que a verdade é verdadeira. A separação que a doença quer impor não acontece nunca verdadeiramente. Estar curado é apenas aceitar o que sempre foi a simples verdade, que continuará a ser exatamente como é para sempre. Porém, deve-se mostrar a olhos acostumados às ilusões que aquilo para que eles olham é falso. Por isto, a cura, de que a verdade nunca precisa, tem de demonstrar que a doença não é real.

5. Deste modo, a cura poderia ser chamada de um contra-sonho, que cancela o sonho de doença em nome da verdade, mas não na própria verdade. Da mesma forma que o perdão ignora todos os pecados, que nunca se realizaram, a cura apenas elimina as ilusões, que nunca aconteceram. Assim como o mundo real surgirá para ocupar o lugar daquilo que absolutamente nunca existiu, a cura apenas oferece reparação para os estados imaginários e ideias falsas que os sonhos bordam em quadros da verdade.

6. Não penses, porém, que a cura não é digna de tua função aqui. Pois o anticristo se torna mais poderoso do que Cristo para aqueles que sonham que o mundo é real. O corpo parece ser mais sólido e estável do que a mente. E o amor vem a ser um sonho, enquanto o medo continua a ser a única realidade que se pode ver e justificar e compreender inteiramente.

7. Da mesma forma que o perdão afasta todo o pecado e que o mundo real virá ocupar o lugar daquilo que fizeste, a cura também tem de substituir as fantasias de doença que manténs diante da simples verdade. Quando se vir a doença desaparecer apesar das leis que sustentam que ela não pode deixar de ser real, então, as perguntas estão respondidas. E não se pode mais alimentar nem obedecer a essas leis.

8. Cura é liberdade. Porque demonstra que os sonhos não prevalecerão sobre a verdade. A cura é compartilhada. E por esta característica ela prova que leis diferentes daquelas que sustentam ser a doença inevitável são mais fortes do que seus contrários doentios. Cura é força. Porque por sua mão benigna supera-se a fraqueza e mentes que estavam emparedadas dentro de um corpo são libertadas para se unirem com outras mentes, para serem fortes para sempre.

9. Cura, perdão e a troca alegre de todo o mundo de pesar por um mundo no qual a tristeza não pode entrar são os meios pelo quais o Espírito Santo insiste contigo para que O sigas. Suas lições benignas ensinam quão facilmente a salvação pode ser tua, quão pouco exercício precisas fazer para permitir que Suas leis substituam as que tu inventaste para te manteres prisioneiro da morte. A vida d'Ele vem a ser a tua tão logo ofereces o pouco auxílio que Ele solicita para te libertar de tudo o que alguma vez te causou dor.

10. E, quanto te permites ser curado, vês todos aqueles à volta de ti, ou aqueles que te passam pela cabeça, ou aqueles que tocas ou aqueles que parecem não ter nenhum contato contigo curados junto contigo. Talvez não os reconheças a todos nem te dês conta de quão imensa é tua oferenda para todo o mundo, quando a cura chega para ti. Mas tu nunca és curado sozinho. E legiões após legiões receberão a dádiva que recebes quando és curado.

11. Aqueles que são curados se tornam instrumentos de cura. E também não existe nenhum intervalo entre o momento em que eles são curados e o momento em que toda a graça da cura lhes é oferecida para que eles a deem. Aquilo que é contrário a Deus não existe e quem não o aceita em sua mente se torna um porto aonde os fatigados podem permanecer para descansar. Pois aí a verdade é concedida e aí todas as ilusões são trazidas à verdade.

12. Não oferecerias abrigo à Vontade de Deus? Tu apenas convidas teu Ser a ficar à vontade. E este convite pode ser recusado? Pede que o inevitável aconteça e não falharás nunca. A outra escolha é apenas pedir que aquilo que não pode existir exista e isto não pode ser bem-sucedido. Hoje, pediremos que apenas a verdade ocupe nossas mentes; que pensamentos de cura queiram que este dia siga adiante daquilo que está curado na direção do que ainda tem de ser curado, cientes de que ambos acontecerão como uma coisa só.

13. À medida que cada hora passar, vamos nos lembrar de que nossa função é deixar que nossas mentes sejam curadas, para que possamos levar cura ao mundo, trocando a maldição pela bênção, a dor pela alegria e a separação pela paz de Deus. Não vale a pena dar um minuto de cada hora para receber uma dádiva como esta? Um pouco de tempo não é um custo pequeno a se oferecer pela dádiva de tudo?

14. No entanto, temos de estar preparados para tal dádiva. E, por isto, começaremos o dia com isto e daremos dez minutos a estes pensamentos, com os quais, à noite, também concluiremos o dia de hoje:

Quando sou curado, não sou curado sozinho. E quero compartilhar
minha cura com o mundo, para que a doença possa ser banida da
mente do Filho único de Deus, Que é meu único Ser.

15. Deixa que a cura aconteça por teu intermédio hoje mesmo. E, enquanto descansas em serenidade, prepara-te para dar da mesma forma que recebes, para guardar apenas o que dás e para receber a Palavra de Deus para tomar o lugar de todos os pensamentos tolos que já foram imaginados. Agora nos reunimos para tornar são tudo o que estava doente e para oferecer a bênção onde havia ataque. Também não deixaremos que esta função fique esquecida enquanto cada hora do dia passar, lembrando-nos de nosso objetivo com este pensamento:

Quando sou curado, não sou curado sozinho. 
E quero abençoar meus irmãos,
porque quero ser curado com eles, 
à medida que eles forem curados comigo.

*

COMENTÁRIO:

Explorando a LIÇÃO 137

Caras, caros,

Quantas vezes em nossas vidas já nos sentimos sozinhas, sozinhos? Quantas vezes já pensamos que ninguém no mundo nos entende, ou se interessa por nós, ou por aquilo que sentimos em determinado momento? Quantas vezes sentimos o desânimo se abater sobre nós por nos julgarmos menos importantes que qualquer outra pessoa, às vezes até menos importantes do que um animalzinho de estimação de alguém?

Todos estes pensamentos, estas perguntas, têm origem no ego, é claro. Assim como as sensações que a maioria das vezes nos faz pensar que estamos sós. Que Deus não existe, ou, se existe, não tem o menor interesse em nossas vidas. 

Na verdade, nunca estamos sozinhas, ou sozinhos. A solidão é algo impossível, mesmo para uma pessoa que viva como eremita, ou que esteja perdida no deserto, ou nalgum lugar remoto do planeta. Toda a vida que pulsa no planeta à volta de nós, mesmo aquela de que não temos ciência, é nossa companhia constante, ainda que a maior parte de tempo não saibamos disso.

É disso também que vamos tratar com as práticas da ideia que o Curso nos traz na lição de hoje.

"Quando sou curado, não sou curado sozinho."

"Curar é fazer feliz." Esta frase abre o capítulo cinco do texto, que diz, em seguida: "A luz que te pertence é a luz da alegria". Tanto isso é verdadeiro que, em outro ponto, o Curso afirma que "curar é devolver a alegria". A alegria completa e perfeita, que é a condição natural do Filho de Deus, que somos todos e todas nós na unidade.

Reza a lenda que Deus criou o mundo porque estava se sentindo sozinho. Entretanto, como tudo o que existe existe n'Ele/n'Ela, e n'Ele/n'Ela se move tão-somente, podemos desconfiar que Ele/Ela continua sozinho, assim como nós, cada um, e cada uma, em seu mundo continua sozinho, ou sozinha, apesar de tantos e tantas de nós aparentemente existirem para ser a Sua, d'Ele/d'Ela, manifestação no mundo.

Ora, se só existe Deus, então, onde pode estar a doença? Onde pode estar o problema? Onde pode haver a separação? Só na mente daquele, ou daquela, que, de modo equivocado, acredita se ter separado de Deus para viver uma ilusão de mundo, a partir da forma, do corpo, e da percepção dos sentidos.

Na verdade, tudo o que existe existe na unidade. Tudo está em constante e permanente relacionamento com tudo. Tanto assim é que já aprendemos que ao menor gesto que fazemos o mundo inteiro muda e se configura novo a partir daquele gesto. Mesmo quando não vemos a mudança acontecer.

Como a lição ensina logo em seu primeiro parágrafo: 

A doença é um afastamento dos outros e um fechar-se à união. Ela vem a ser uma porta que se fecha sobre um ser separado e o mantém isolado e sozinho.

E, em seguida, no início do segundo: 

A doença é isolamento.

Lá já no finalzinho do capítulo cinco, o Curso diz: "Sempre que não estás totalmente alegre é porque reagiste com falta de amor a uma das criações de Deus". E é deste tipo de reação que precisamos nos curar. A reação que se origina no julgamento e que nos afasta da alegria e nos impede de chegar à paz e à felicidade. Porque nos afasta, isola e separa uns dos outros, umas das outras.

E é disto também que trata a ideia da lição que praticamos hoje. Uma ideia que trata de nos lembrar da unidade que somos e da unidade de que fazemos parte. Um modo de abandonarmos a ideia de que qualquer um, ou qualquer uma, de nós pode existir independente do outro, da outra, ou dos outros e das outras, ou de Deus. 

E esta ideia vale também para Deus, uma vez que o Curso ensina - para sabermos de forma clara e cristalina, inequívoca, quão importantes, poderosos e poderosas somos - que: "O próprio Deus é incompleto sem mim". O que é uma forma de nos ensinar que não fazemos nada sozinhos, ou sozinhas. Nunca poderemos fazer. Nem Deus, de Quem nunca estamos separados, nem separadas. Uma forma de ensinar também que tudo o que fazemos a qualquer ser, animado ou inanimado, no mundo traz consequências para cada um e cada uma de nós, para todos e todas nós e para o mundo inteiro.

Assim, se nos lembrarmos de que não existe nada fora de nós mesmos, ou de nós mesmas, vai ser possível entender que "Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria... Depois, retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinha... Essa - a alegria que Ele quer...", conforme nos ensina Guimarães Rosa.

Às práticas?

sábado, 16 de maio de 2026

Ter consciência da unidade já é o início da salvação

 

LIÇÃO 136

A doença é uma defesa contra a verdade.

1. Ninguém pode curar a menos que compreenda a que propósito a doença parece servir. Pois, então, ele compreende também que o propósito dela não faz nenhum sentido. Por não ter motivo e não ter uma intenção significativa de qualquer tipo, ela não pode absolutamente existir. Quando se percebe isto, a cura é instantânea. Ela afasta este ilusão sem sentido com a mesma atitude que as leva todas à verdade e as deixa simplesmente aí para desaparecerem.

2. A doença não é um acidente. Como todas as defesas, ela é um instrumento para o auto-engano. E, como todas as restantes, seu objetivo é esconder a verdade, atacá-la, transformá-la, torná-la absurda, deturpá-la, distorcê-la ou reduzi-la a uma quantidade insignificante de peças desagregadas. A meta de todas as defesas é impedir a verdade de ser íntegra. Veem-se as partes como se cada uma fosse íntegra em si mesma.

3. As defesas não são involuntárias, nem se fazem sem consciência. Elas são varas de condão, mágicas e discretas que brandes quando a verdade parece ameaçar aquilo em que queres acreditar. Elas parecem ser inconscientes apenas em razão da rapidez com que escolhes usá-las. Naquele segundo, menos até, em que se faz a escolha, reconheces exatamente o que queres tentar fazer e, então passas a pensar que já está feito.

4. Quem, a não ser tu mesmo, avalias uma ameaça, decide que é necessário uma saída e fixa uma série de defesas para reduzir a ameaça que é considerada como real? Não se pode fazer tudo isto de forma inconsciente. Mais tarde, porém, teu plano exige que tenhas de esquecer que o fizeste, para que ele pareça estar fora de teu próprio objetivo; um acontecimento fora da compreensão de teu estado de espírito, um resultado com efeito real sobre ti, em lugar de um que tu mesmo causaste.

5. É este rápido esquecimento do papel que desempenhas na construção de tua "realidade" que faz as defesas parecerem estar fora de teu próprio controle. Mas é possível lembrar o que esqueces, com decidida disposição para reconsiderar a decisão que está protegida duplamente pel esquecimento. Tu não te lembrares é apenas o sinal de que esta decisão ainda está em vigor, no que se refere a teus desejos. Não confundas isto com fato. As defesas têm de tornar os fatos irreconhecíveis. Elas têm por objetivo fazer isto, e é isto que fazem.

6. Toda defesa apanha fragmentos do todo, reúne-os sem levar em conta todas as suas relações verdadeiras e, desta forma, constrói ilusões de um todo que não existe. É este processo que impõe ameaça e não qualquer resultado que provenha dele. Quando partes são arrancadas do todo e vistas como separadas e íntegras em si mesmas, elas se tornam símbolos que representam ataque ao todo; bem-sucedidas, de fato, mas para nunca mais serem vistas como íntegras. E, no entanto, esqueces que elas apenas representam tua própria decisão do que deveria ser real para tomar o lugar do que é real.

7. A doença é uma decisão. Ela não é uma coisa bem indesejável que te acontece, que te torna fraco e te traz sofrimento. É uma escolha que fazes, um plano que preparas, quando por um instante a verdade surge em tua mente iludida, e todo o teu mundo parece tremer e se preparar para ruir. Agora estás doente, a fim de que a verdade possa se afastar e não ameace mais as tuas bases.

8. Como pensas que a doença pode ser bem-sucedida em te proteger da verdade? Em razão de ela provar que o corpo não está separado de ti e, assim, tu tens de estar separado da verdade. Tu sentes dor porque o corpo sofre e nesta dor tu te tornas um com ele. Deste modo, preserva-se tua "verdadeira" identidade e se cala e se acalma a ideia estranha e dolorosa de que poderias ser algo mais do que este pequeno monte de pó. Vê, pois, que este pó pode te fazer sofrer, torcer teus membros e parar teu coração, ordenando-te que morras e deixes de existir.

9. Desta forma, o corpo é mais forte do que a verdade, que pede que vivas, mas não pode derrotar tua escolha de morrer. E, por isto, o corpo é mais poderoso do que a vida eterna, o Céu mais frágil do que o inferno e o plano de Deus para a salvação de Seu Filho é contrariado por uma decisão mais forte do que a Vontade d'Ele. Seu Filho é pó, o Pai incompleto e o caos se senta em triunfo no trono de Deus.

10. Este é teu plano para tua própria defesa. E acreditas que o Céu se inclina diante de ataques tão loucos quanto estes, Deus tornado cego por tuas ilusões, a verdade transformada em mentiras e todo o universo feito escravo de leis que tuas defesas querem impor a ele. Porém, quem acredita em ilusões a não ser aquele que as inventou? Quem mais pode vê-las e reagir a elas como se fossem a verdade?

11. Deus não conhece teus planos para mudar a Vontade d'Ele. O universo continua sem perceber as leis pelas quais pensas governá-lo. E o Céu não se curva ao inferno, nem a vida à morte  Tu só podes escolher pensar que morres, ou sofres de doenças ou deturpar a verdade de alguma foram. Aquilo que foi criado está distante de tudo isto. As defesas são planos para derrotar aquilo que não se pode atacar. Aquilo que é inalterável não pode mudar. E aquilo que é totalmente inocente não pode pecar.

12. Esta é a simples verdade. Ela não apela para o poder nem para o triunfo. Ela não ordena obediência, nem busca provar quão lamentáveis e inúteis são tuas tentativas de planejar defesas que querem modificá-la. A verdade quer simplesmente te dar felicidade, pois este é o propósito dela. Talvez ela lamente um pouco com suspiros quando jogas fora suas dádivas e, não obstante, ela sabe, com perfeita segurança, que aquilo que Deus quer para ti tem de ser recebido.

13. É este fato que demonstra que o tempo é uma ilusão. Pois o tempo te permite pensar que aquilo que Deus te dá não é a verdade agora mesmo, como ela tem de ser. Os Pensamentos de Deus estão bem distantes do tempo. Pois o tempo é apenas outra defesa inútil que fizeste contra a verdade. Contudo, o que Ele quer está aqui, e tu continuas a ser como Ele te criou.

14. A verdade tem um poder muito superior ao das defesas, pois nenhuma ilusão pode permanecer no lugar em que se permite que a verdade penetre. E ela vem a qualquer mente que queria baixar suas armas e parar de brincar com a loucura. Pode-se achá-la a qualquer momento; hoje, se estiveres disposto a escolher praticar dar boas vindas à verdade.

15. Este é nosso objetivo hoje. E dedicaremos um quarto de hora, duas vezes, para pedir que a verdade venha a nós e nos liberte. E a verdade virá, pois ela nunca está distante de nós. Elas espera simplesmente por este convite que oferecemos hoje. Nós o apresentamos com uma prece de cura, para nos ajudar a nos elevarmos acima da defensividade e permitirmos que a verdade seja como ela sempre é:

A doença é uma defesa contra a verdade. Aceitarei a verdade do
que sou e permitirei que minha mente seja totalmente curada hoje.

16. A cura brilhará de um lado a outro de tua mente aberta hoje, à medida que a paz e a verdade surgem para tomar o lugar da guerra e das fantasias inúteis. Não haverá nenhum canto escuro que a doença possa esconder e manter defendido da luz da verdade. Não haverá nenhuma imagem turva de teus sonhos, nem perseguições sombrias e sem significado com propósitos dúbios buscados de forma insana que permaneça em tua mente.

17. Agora o corpo está curado, porque a fonte da doença se abre para o alívio. E tu reconhecerás que praticaste bem por isto: o corpo não deve absolutamente sentir. Se fores bem-sucedido, não haverá nenhuma sensação de passar mal ou bem, de dor ou prazer. Não há absolutamente nenhuma reação na mente àquilo que o corpo faz. Sua utilidade permanece e nada mais.

18. Talvez não te dês conta de que isto elimina os limites que tinhas colocado sobre o corpo pelos propósitos que lhe davas. Quando estes são deixados de lado, a força que o corpo tem será sempre suficiente para atender a todos os propósitos verdadeiros. A saúde do corpo está plenamente garantida, porque ele não está limitado pelo tempo, pelo clima ou pela fadiga, pelo alimento e pela bebida, ou por quaisquer leis que o fizeste obedecer anteriormente. Tu não precisas fazer nada agora para deixá-lo bem, pois a doença vem a ser impossível.

19. Mas esta proteção precisa ser preservada por atenção cuidadosa. Se permitires que tua mente abrigue pensamentos de ataque, autorize julgamentos ou faça planos contra as incertezas por virem, tu mais uma vez te colocas no lugar errado e inventas uma identidade corpórea que atacará o corpo, pois a mente está doente.

20. Dá-lhe remédio imediato, se isto acontecer, não permitido que tua defensividade te fira mais. Não te confundas a respeito do que tem de ser curado, mas dize a ti mesmo:

Eu me esqueci do que realmente sou, pois me confundi
com meu corpo. A doença é uma defesa contra a verdade.
Mas eu não sou um corpo. E minha mente não pode atacar.
Por isto, não posso ficar doente.

*

COMENTÁRIO:

Explorando a LIÇÃO 136

Caras, caros,

Quantas vezes já paramos para pensar a respeito do que nos põe doentes? Ou de onde vêm as doenças? Será que "alguém", na criação do mundo, pensou que todos os que viveriam aqui não poderiam ter uma vida calma, tranquila, saudável, uma vida alegre e feliz, e resolveu que seria necessário passarmos pelas maiores provações, pelos maiores perrengues, antes de encontrarmos alguma paz?

Ora, se pensarmos de modo lógico, isso é um absurdo. Se tudo o que existe no mundo é parte de nós, de nós todas, todos, de cada uma e de cada um de nós, quem ou o que pode ser responsável por quaisquer doenças que venhamos a contrair? Podemos até pensar na pandemia, que esteve conosco até algum tempo atrás, e que continua a levar algumas vidas. De onde ela veio? Por que veio e para quê?

Não sabemos, é claro. Ninguém sabe. Não há respostas. E as respostas, se houvessem, não serviriam de nada. O passado passou. O futuro não existe. Só nos resta viver o presente. Sempre. O tempo todo.

É disso, da doença, e do que ela é, que a ideia da lição que o Curso nos oferece para as práticas de hoje vai tratar.

"A doença é uma defesa contra a verdade."

Olhemos mais uma vez, com toda a atenção de que somos capazes, para o que nos diz a lição de hoje a partir de um ponto específico do texto, juntando a ele todas as lições por que passamos até agora.

Pode não ser bem claro para muitas e muitos de nós que quando ficamos doentes, ou quando alguém a nossa volta fica doente, estamos, nós e esse alguém, buscando uma forma de fugir à verdade. Isto é, negamo-nos a reconhecer que escolhemos um caminho que nos afasta da alegria e da paz - se não formos capazes de mantê-las com, e apesar da doença aparente - e reforçamos a crença na separação.

O ponto do texto a que quero me referir diz o seguinte: 

Queres a liberdade do corpo ou a da mente? Pois não podes ter a ambas. Qual delas valorizas? Qual é tua meta? Pois vês a um deles como meio; o outro, fim. E um deve servir ao outro e levar a seu predomínio, aumentando sua importância pela diminuição de sua própria importância.

Isto significa dizer que se escolhemos a liberdade do corpo, temos forçosamente de pôr a mente a serviço do corpo. Isto é, a mente tem de ser o meio de prover a liberdade do corpo. Deve servi-lo e reduzir sua importância a ponto de só o corpo vir a contar.

Então, o corpo pode ficar à vontade para se tornar adorado, cultuado, para receber tudo aquilo de que ele "aparentemente" precisa para continuar a ser o patrão da mente. As doenças, os sofrimentos, as deformações, o envelhecimento e tudo o que "aparentemente" faz parte da liberdade que escolhemos para o corpo têm de ser garantidas pela submissão da mente aos desejos do corpo. Afinal, ao nos identificarmos com o corpo, aceitamos a ideia de que somos apenas corpos.

No entanto, o texto continua, para nos alertar para o equívoco a que estão sujeitos aqueles e aquelas dentre nós que escolhem a liberdade do corpo. 

Assim:

Quando se escolhe a liberdade do corpo, a mente passa a ser usada como meio, um meio cujo valor está em sua capacidade de inventar formas de alcançar a liberdade do corpo. Porém, a liberdade do corpo não tem nenhum sentido, e, por isso, a mente se dedica a servir a ilusões. Esta é uma situação tão contraditória e tão impossível que qualquer um que a escolha não faz nenhuma ideia daquilo que tem valor. 

É disso, então, que trata a lição que praticamos hoje. Ela traz consigo a verdade, que pode nos fazer ver qual é escolha que estamos fazendo. E oferece também o milagre. Oferece a oportunidade de escolhermos de novo, caso nossa escolha seja equivocada e não tenha sentido.

Ela mostra de forma clara aquilo que o mundo quer que acreditemos acerca de nós mesmos e de nós mesmas, para reforçar a ilusão de que não podemos nada, de que não passamos mesmo de um monte de pó, e de que tudo o que podemos fazer é nos conformarmos com a impotência, deixando que a mente se sujeite aos desígnios, desejos e vontades do corpo. 

A ideia para as práticas de hoje vai nos mostrar os verdadeiros interesses do ego por trás da ideia da doença, uma defesa criada por ele, o falso eu, em busca de sua própria proteção.

De certo modo, a ideia que praticamos hoje é complementar à praticada ontem, e, do mesmo modo que ela, resume todo o ensinamento do Curso, oferecendo-nos, mais uma vez, a oportunidade do aprendizado de tudo aquilo que precisamos saber para ficarmos livres de toda e qualquer doença de uma vez por todas. Para nos libertarmos para sempre de qualquer ilusão. Para alcançarmos a liberdade que só o espírito dá.

É claro que há muito trabalho a se fazer até que nos libertemos de todas as crenças que o mundo nos ensinou, ensina e vai continuar a ensinar. Daí Jesus, segundo o que nos chega de suas palavras, ter dito que pobres e doentes vão existir sempre. Seu ensinamento, no entanto, apontava para o reconhecimento de nossa condição de filhos de Deus, em unidade com o Pai, quando ele afirmou: "eu e o Pai somos um". Ter consciência disso, e de que também somos um com ele e com o Pai, é o começo da salvação. 

Às práticas, pois!