sábado, 13 de junho de 2026

É bem possível construir um paraíso portátil dia a dia

 

LIÇÃO 164

Agora somos um com Aquele Que é nossa Fonte.

1. Em que momento senão agora a verdade pode ser reconhecida? O presente é o único tempo que existe. E chegamos, por isto, hoje, neste instante, agora, para olhar para aquilo que existe para sempre; não em nossa visão, mas aos olhos de Cristo. Ele olha para além do tempo e vê a eternidade tal como ela se apresenta aí. Ele ouve os sons que o mundo sem sentido e agitado engendra, mas Ele os ouve vagamente. Pois, além deles todos, Ele ouve a melodia do Céu e a Voz por Deus mais clara, mais significativa, mais próxima.

2. O mundo se desvanece facilmente diante de Sua visão. Seus ruídos se tornam indistintos. Uma melodia de muito longe do mundo fica cada vez mais distinta; um chamado antigo ao qual Ele dá uma resposta antiga. Tu os reconhecerás a ambos pois são apenas tua resposta ao Chamado de teu Pai a ti. Cristo responde por ti refletindo teu Ser, utilizando tua voz para dar Seu consentimento feliz, aceitando tua liberação por ti.

3. Quão santa é tua prática hoje, quando Cristo te dá Sua visão e ouve por ti, e responde ao Chamado que Ele ouve em teu nome! Quão sereno é o instante que ofereces para passar com Ele, distante do mundo. Quão facilmente se esquecem todos teus pretensos pecados e se apagam todas as tuas tristezas. Neste dia abandona-se a aflição, pois visões e sons que chegam de um ponto mais próximo do que o mundo ficam claros para ti que, hoje, desejas aceitar as dádivas que Ele oferece.

4. Há um silêncio no qual o mundo não pode se intrometer. Há uma paz antiga que levas em teu coração e que não perdes. Há em ti uma sensação de santidade que o pecado não toca nunca. Tu te lembrarás de tudo isto hoje. A fidelidade na prática hoje trará recompensas tão grandes, e tão completamente diferentes de todas as coisas que buscaste antes, que saberás que teu tesouro está aqui e que aqui está teu descanso.

5. Este é o dia em que fantasias vãs se abrem como uma cortina para revelar o que há além delas. Agora, aquilo que existe realmente se faz visível, enquanto todas as sombras que pareciam escondê-lo simplesmente desaparecem. Agora se atinge o equilíbrio e a balança do julgamento é entregue Àquele Que julga verdadeiramente. E, no julgamento d'Ele, um mundo de perfeita inocência se desdobrará diante dos teus olhos. Agora tu o verás com os olhos de Cristo. Agora sua transformação está clara para ti.

6. Irmão, este dia é sagrado para o mundo. Tua visão, que te foi dada de muito além de todas as coisas neste mundo, volta seu olhar para elas sob uma nova luz. E o que vês vem a ser a cura e a salvação do mundo. O valioso e o sem valor são percebidos e reconhecidos por aquilo que são. E o que é digno de teu amor recebe teu amor, enquanto não sobra nada para se temer.

7. Não julgaremos hoje. Receberemos apenas o que nos é dado pelo julgamento feito além do mundo. Nossa prática de hoje se torna a dádiva de gratidão por nossa libertação da cegueira e do sofrimento. Tudo o que vemos só aumentará nossa alegria, porque sua santidade reflete a nossa. Estamos perdoados na visão de Cristo, com o mundo todo perdoado na nossa. Abençoamos o mundo, ao vê-lo na luz em que nosso Salvador olha para nós e lhe oferece a liberdade que nos é dada por Sua visão de perdão, e não por nossa própria visão.

8. Abre as cortinas em tua prática abandonando simplesmente todas as coisas que pensas querer. Põe de lado teus tesouros insignificantes e deixa um espaço claro e aberto em tua mente ao qual Cristo pode vir e te oferecer o tesouro da salvação. Ele necessita de tua mente mais sagrada para salvar o mundo. Este propósito não é digno de ser teu? Não vale a pena buscar a visão de Cristo acima das metas insatisfatórias do mundo?

9. Não deixes que o dia de hoje passe sem que as dádivas que ele contém para ti recebam teu consentimento e tua aceitação. Podemos mudar o mundo se tu as reconheceres. Talvez não percebas o valor que tua aceitação dá ao mundo. Mas certamente queres isto: poder trocar todo o sofrimento pela alegria neste dia mesmo. Pratica com seriedade e a dádiva é tua. Deus te enganaria? A promessa d'Ele pode falhar? Podes te recusar a tão pouco, quando a Mão d'Ele oferece a salvação completa a Seu Filho?

*

COMENTÁRIO:

Explorando a LIÇÃO 164

Caras, caros,

A vida lhes parece difícil? Amarga? Cheia de coisas que gostariam de não experimentar? Experiências que preferiam não viver?

Parece-lhes que tudo conspira contra sua felicidade, sua alegria, sua vontade de estar em paz, sem grandes preocupações, sem grandes contrariedades? Parece-lhes difícil fazer do limão uma limonada?

Penso que para a maioria de nós, pessoas que vivem na crença, ou que vivem a crença de uma separação que não existe, essa crença é o que nos impede de desfrutar verdadeiramente das coisas e dos fatos da vida. Quer dizer, é a ideia de que somos o que o ego nos diz que somos que nos impede de ver de forma clara o que a vida está a nos oferecer todos os dias. 

Por isso é que precisamos praticar com toda a honestidade e disposição de que somos capazes a ideia que o Curso nos oferece para o treino de hoje.


"Agora somos um com Aquele Que é nossa Fonte." 

A ideia para as práticas de hoje, repetindo os comentários de anos passados, revela simplesmente, mais uma vez, de forma clara e cristalina algo que nunca mudou, não muda e não mudará jamais. Algo que precisamos incluir em nossos pensamentos de todos os dias, de todas as horas, de todos os minutos e de todos os segundos que vivemos. Algo a que precisamos nos acostumar de novo: a verdade a nosso próprio respeito. A respeito daquilo que somos na verdade. Na unidade. 

Precisamos das práticas das ideias que o Curso oferece por não estarmos acostumados e acostumadas à verdade, depois de tanto tempo no mundo - ou até mesmo para alguns daqueles, ou algumas daquelas que, entre nós, não estejam aparentemente aqui há muito tempo. O fato é que por estarmos aqui, ou por nos acreditarmos aqui, desde que nascemos num corpo, estamos, desde então, aprendendo, praticando e reforçando dia a dia a ilusão, acreditando que pode haver algo de verdadeiro neste mundo, como o ego quer que pensemos, para garantir realidade a sua existência. 

E, falando de práticas, há um grupo de estudos do Curso na internet que ensina que "todo dia é dia de treino", como forma de não se perder de vista a necessidade do exercício constante e contínuo. Eu diria mais: que todo instante é ocasião de treino, de prática da verdade. Porque precisamos aprender a ficar atentos e atentas o tempo todo. Precisamos aprender a não nos distrairmos de nós mesmos e de nós mesmas. É preciso, como dizia Gurdjieff, "lembrar-se de si". O tempo todo. A todo instante.

Em todo o caso, não custa chamar a atenção, tantas vezes quanto possível, para o fato de que, "agora [e sempre], somos um com Aquele Que é nossa Fonte", porque sempre fomos e nunca deixamos, nem deixaremos de ser, como a ideia da lição de hoje quer que nos lembremos, mesmo que ainda não tenhamos plena consciência disso. 

A questão é que, quando não estamos conscientes da Presença da Fonte de toda a vida em nós, não podemos nos valer de Sua Força, de Seu Poder, o Único Poder que existe e que, de acordo com Joel Goldsmith, nem é um poder, porque não precisa ser, uma vez que não há nada fora de Si. Não há nada que possa ameaçar a Verdade, a Vida. É por isso que praticamos lá atrás, lembram?, a ideia de que não há nada a temer. Nem agora nem nunca.

A separação em que o falso eu - o ego, para o Curso - acredita não aconteceu. Não há, nem nunca haverá nenhuma possibilidade de nos separarmos de Deus, da Fonte. E se alguma vez imaginamos que isso é possível é apenas porque nos distraímos de nós mesmos e de nós mesmas. Por alguns instantes nos distraímos do fato de que somos um com Deus permanentemente. Nós nos distraímos de nós e pensamos ser possível a separação de nossa Fonte, e da unidade com tudo o que existe.

Nosso equívoco se deve principalmente ao fato de que pensamos no tempo de forma linear. Isto é, pensamos existir um tempo que passou, o passado; um tempo que acontece agora, o presente; e um tempo que será decorrente destes, o futuro. E, a maior parte do tempo, vivemos entre o passado e o futuro, sem nos darmos conta de que, como a lição nos diz hoje, o presente é o único tempo que existe.

Na verdade, não podemos viver senão o presente, o agora, no presente. Aqui e agora. Não há um modo de viver que seja resultado de alguma coisa que já vivemos, ou que alguém no mundo já viveu e nos legou como herança, a não ser na ilusão do tempo dividido em passado, presente e futuro.

A verdade é que vivemos, quando vivemos de fato, um presente no instante em que ele se apresenta e somos um com ele, para viver, tão logo aquele instante passe, o instante presente seguinte, e assim por diante, até a eternidade, que só pode ser vista e experimentada quando estamos e somos o que somos no presente, no instante, em cada instante.

Aqueles e aquelas de nós que sentem saudade do passado ou atribuem a fatos que acreditam ter acontecido lá, no passado, os resultados do que vivem agora, esquecem de que só se pode fazer as escolhas no presente. As pessoas que acreditam e esperam uma vida melhor, o Céu, quem sabe, num tempo que virá, também estão se enganando, pois o Céu não é um lugar, não é um estado que vai se apresentar a partir das boas ações que fizermos ao longo do tempo, depois de um tempo, ou depois da morte do corpo. 

Não! Como o Curso ensina e como já praticamos também: o Céu é a decisão que tenho de tomar. Se eu quiser viver o Céu na terra, em minha experiência da forma e dos sentidos. 

Elio D'Anna, em seu livro A Escola dos Deuses, traz um exemplo interessante a respeito do qual vale a pena pensar para melhor entender  por que razão escolhemos as experiências que escolhemos para construir nossas vidas. 

Diz ele a certa altura, já perto do finalzinho do livro, que em nossa experiência diária, em função das crenças que se cristalizaram em nós, e dos pensamentos que escolhemos pensar e das emoções que decidimos sentir e viver, com base na percepção dos sentidos, estamos inclinados e inclinadas a criar e alimentar um inferno portátil, por não querermos abandonar as características de seres irritadiços, irascíveis e briguentos. E essas características, que recebemos de gerações e gerações antes da nossa, são as mesmas que cultivamos e transmitimos às gerações que estão chegando e às que virão depois da nossa. Por quanto tempo? 

Diz mais, e é aqui que eu quero chegar neste comentário, para finalizá-lo, que a vida é sempre como nós a sonhamos. Só podemos encontrar aquilo que sonhamos, aquilo com que alimentamos nossos pensamentos e emoções. Isso é inevitável. Para ele, "a vida já é um paraíso terrestre para quem construiu e alimenta em si constantemente um paraíso portátil".

Assim, relembrando para reforçar, não há nada que possamos fazer em algum tempo, qualquer tempo, que não seja agora. Não nos iludamos mais. A alegria, a felicidade, a paz, o amor, a serenidade, a calma, tudo isto depende de nossa escolha e são o ponto de partida para vivermos a alegria e a paz. A partir disso, construir o paraíso portátil dia após dia é bem possível. 

Porém, se não encontrarmos em nós mesmos e em nós mesmas, agora, a alegria e a paz nas práticas de que somos um com Aquele Que é nossa Fonte, não seremos capazes de vivê-las, nem de oferecê-las a tudo e a todas as pessoas no mundo. Nem de construir nosso próprio paraíso portátil.

Às práticas?

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Para quem crê na morte, não há liberdade possível

 

LIÇÃO 163

Não há morte. O Filho de Deus é livre.

1. A morte é uma ideia que assume muitas formas, muitas vezes não reconhecidas. Pode se apresentar como tristeza, medo, ansiedade ou dúvida; como raiva, descrença e falta de confiança; cuidado com corpos, inveja e todas as formas em que o desejo de seres como não és possa vir a te tentar. Todos estes pensamentos são apenas reflexos da adoração da morte como salvadora e doadora da liberação.

2. Personificação do medo, anfitrião do pecado, deus da culpa e senhor das ilusões e enganos, o pensamento da morte parece, de fato, poderoso. Pois ela parece manter todas as coisas vivas ao alcance de sua mão ressequida; todas as esperanças e desejos sob sua influência maléfica; todas as metas percebidas apenas sob a influência de seus olhos invisíveis. O frágil, o desamparado e o doente se curvam diante de sua imagem, pensando que só ela é real, inevitável, digna de sua confiança. Pois só ela virá com certeza.

3. Todas as coisas a não ser a morte são vistas como incertas, perdidas muito rapidamente apesar de difíceis de ganhar, duvidosas em seus resultados, inclinadas a frustrar as expectativas que geraram em algum momento e a deixar o gosto de pó e de cinzas em seu rastro, em lugar das aspirações e dos sonhos. Só se pode contar com a morte. Pois ela virá com passos seguros quando chegar o momento de sua vinda. Ela nunca deixará de tomar toda vida como refém de si mesma.

4. Tu te curvarias diante de ídolos como este? Nisto se percebe a força e o poder do Próprio Deus no interior de um ídolo feito de pó. Nisto se anuncia o opositor de Deus como senhor de toda a criação, mais forte do que a Vontade de Deus em favor da vida, da infinitude do amor e da constância perfeita e imutável do Céu. Nisto derrota-se finalmente a Vontade do Pai e a do Filho, que são enterradas sob a lápide que a morte coloca sobre o corpo do Filho santo de Deus.

5. Pecaminoso na derrota, ele se torna o que a morte quer que ele seja. Seu epitáfio, que a própria morte escreve, não lhe atribui nenhum nome, pois ele se transforma em pó. Ele diz apenas isto: "Aqui jaz uma testemunha de que Deus está morto". E ela escreve isto vezes sem conta enquanto, o tempo todo, seus adoradores concordam e, ajoelhando-se com a fronte no chão, sussurram que é verdade.

6. É impossível adorar a morte sob qualquer forma e mesmo assim escolher algumas que não apreciarias e que ainda evitarias, embora ainda acreditasses nas demais. Pois a morte é total. Ou todas as coisas morrem ou, ao contrário, elas vivem e não podem morrer. Nenhuma transigência é possível. Pois aqui, mais uma vez, percebemos uma posição evidente que temos de aceitar se formos sãos; aquilo que contradiz uma ideia por completo não pode ser verdadeiro, a menos que seu contrário se prove falso.

7. A ideia da morte de Deus é tão absurda que até mesmo os loucos têm dificuldade em acreditar nela. Pois ela pressupõe que Deus estava vivo uma vez e de alguma forma pereceu; morto, aparentemente, por aqueles que não queriam que Ele sobrevivesse. A vontade mais forte deles pôde triunfar sobre a d'Ele e, por isso, a vida eterna deu lugar à morte. E, com o Pai, morreu também o Filho.

8. Os adoradores da morte podem ter medo. E, não obstante, pensamentos como estes podem ser amedrontadores? Se eles percebessem que é apenas nisto que acreditam, seriam liberados imediatamente. E tu lhes mostrarás isto hoje. Não há morte e nós renunciamos a ela agora sob todas as formas, para a salvação dele e para a nossa própria salvação também. Deus não fez a morte. Por isto, qualquer forma que ela assuma tem de ser ilusão. É esta posição que tomamos hoje. E nos é dado olhar para além da morte e ver, adiante, a vida.

9. Abençoa nossos olhos hoje, Pai Nosso. Somos Teus mensageiros e queremos olhar para o reflexo glorioso de Teu Amor que resplandece em todas as coisas. Vivemos e nos movemos em Ti apenas. Não estamos separados de Tua vida eterna. A morte não existe, pois a morte não é a Tua Vontade. E nós habitamos no lugar aonde Tu nos colocaste, na vida que compartilhamos Contigo e com todas as coisas vivas, para sermos iguais a Ti, e partes de Ti para sempre. Nós aceitamos Teus Pensamentos como nossos e nossa vontade está eternamente em unidade com a Tua. Amém.

*

COMENTÁRIO:

Explorando a LIÇÃO 163

Caras, caros,

Vocês certamente já pensaram no que acontece com uma pessoa que morre. Já passaram pela experiência de um ente querido falecer, não é mesmo? E enfrentaram o luto e toda a tristeza que adveio dele. E ouviram todas as manifestações de consolo e de estímulo. E lhes pareceu que nada fazia mais sentido nenhum, não é?

No entanto, talvez ainda não tenham pensado a sério a respeito de sua própria morte, a respeito do que esperam que aconteça quando chegar sua hora, mas creio que não há razão para qualquer preocupação com este assunto. Pelo menos para quem quer que acredite na vida. Que perceba a vida como uma experiência que se renova a cada instante, independentemente do que aconteça.

É disto que vamos falar a partir das práticas com a ideia que o Curso nos traz hoje.

"Não há morte. O Filho de Deus é livre."

A ideia para as práticas de hoje, como já vimos mais de uma vez, vem bem a calhar para quem em algum momento já entrou em contato com as ideias do livro A Escola dos Deuses, de Elio D'Anna, de que já falei aqui algumas vezes. Mas não é necessário ter lido o livro para aproveitar também do ensinamento que as práticas com ela podem nos trazer. 

Voltando ao livro, porém, há que se pensar que um de seus pontos centrais, assim como no ensinamento do Curso, está na ideia de que é necessário questionarmos a crença, segundo a qual a morte é inevitável. Uma ideia que nos foi, é e continua a ser, incutida desde crianças. Quem sabe até desde antes de nascermos para esta experiência ilusória de vida num corpo. 

Vejamos pois o que a lição tem em comum com o que o livro pede que questionemos. Como lhes propus no comentário de anos passados, a questão continua a ser a mesma. 

Como falar de liberdade para quem acredita em morte, "na morte"? Que liberdade pode existir para alguém, se sua crença é a de que, mais dia menos dia, seu destino vai ser a morte? Ou como dizer para alguém que a única realidade neste mundo é, de fato, o sonho? Não aquele que temos enquanto dormimos, nem aquele que sonhamos acordados, e não despertos. Mas aquele que é o combustível que nos move. Só por um sonho, nascido de nossa vontade de nos conhecermos, de conhecermos - ou de voltarmos à consciência permanente da presença dela em nós - a divindade interior que nos inspira e move, vivemos. 

É por isso que a ideia da existência da morte - e de sua inevitabilidade - é uma grande ameaça à liberdade. Não podemos ser livres de fato, enquanto acreditarmos na morte. A morte só pode existir para quem acredita haver algo de real, algo de verdadeiro, no tempo. Para alguém que, em algum momento, de sua vida acredita que agora, com esta idade, seja ela qual for, com este tanto de anos vividos, já não dá para começar nada de novo. Já não dá para sonhar. Sim, sim, sempre há tempo para se começar de novo, seja lá qual for o sonho, seja qual for o projeto ou o plano. Depois de Santiago de Compostela, pensei, ao voltar, que poderia aprender a surfar, o que acham? É muito tarde depois dos 70 anos?

Isso me lembra de que quando vim do sul para São Paulo, conheci, entre outras, uma pessoa, um menino, ele tinha dezoito naquela época, que falava que seu maior medo, depois da morte, era envelhecer. Eu tinha vinte e nove, indo para os trinta e já era um velho para ele. Que dizia não se imaginar com minha idade, ou mais velho ainda. Lá já se vão 44 anos e ele chegou aos 62. E passou, há algum tempo, no ano do início da pandemia, pela experiência da Covid-19, 60 dias UTI, intubação, traqueostomia, diálise porque a medicação afetou o funcionamento de seus rins. Mas saiu e está se recuperando. Está agora 33 anos mais velho do que eu era à época. Qual será seu maior medo hoje? A morte?

Cortella diz que gente não fica velha. Quem fica velho é sapato, eletrodoméstico, roupa. Nós, de acordo com ele, somos sempre a cada momento a versão mais nova de nós mesmos e de nós mesmas. Basta deixarmos de lado a ideia da velhice e da morte. Mas é preciso que acreditemos para valer que a morte não existe, como a ideia que o Curso pede que pratiquemos hoje.

Não existe morte! O Curso afirma isto com todas as letras. Mais, ele diz também que não há nenhum mundo. E só poderemos ser livres, de verdade, quando reconhecermos como verdadeiras estas afirmações. Pois não seremos livres, enquanto pairarem sobre nossas cabeças a ideia de que caminhamos inexoravelmente para o fim da vida e a de que há alguma coisa de valor, que possamos querer, neste mundo de ilusões.

O Filho de Deus é livre. Eu sou como Deus me criou. Não há morte. Não há nada a temer. Deus vai comigo aonde eu for. Se me defendo, sou atacado. O poder de decisão é meu. Recuarei e permitirei que Ele me mostre o caminho.

Eis aí algumas ideias que já praticamos algumas vezes - alguns e algumas de nós várias vezes. Quantos e quantas de nós, de fato, já as assumiram e incorporaram a sua experiência de vida como verdades que podem fazer ver o mundo de modo diferente? Verdades que podem mostrar um mundo perdoado, porque apenas ilusório, efêmero, passageiro? Um mundo que é apenas fruto de uma percepção equivocada, que muda ao sabor das impressões dos sentidos.

Não há morte. Tudo o que existe é vida e vida abundante e plena que se multiplica de uma miríade de formas diferentes nas aparências que vemos, tocamos, provamos, ouvimos e cheiramos. 

Não há morte. E só por isso podemos ser livres.  

Todo o medo que nos mantém acorrentados e acorrentadas e presos e presas a um mundo de ilusões, e nos impede de ser o que somos nas mais variadas circunstâncias e a maior parte do tempo de nossa vida, desaparecerá como que por um passe de mágica, quando acreditarmos, de verdade, na ideia que o Curso nos convida a praticar hoje. 

Não há morte. Ora, todo o medo que experimentamos na ilusão a que chamamos de vida se origina da ideia de que somos mortais, perecíveis, frágeis, vulneráveis, passíveis de ataque e destrutíveis, passageiros e passageiras, como tudo o que vemos neste mundo. Afinal, já "vivemos" o bastante para saber que tudo aquilo que tocamos hoje amanhã pode deixar de existir na forma. Pois "tudo muda o tempo todo no mundo", conforme diz a canção. Mas, e se, de fato, não há morte, e se acreditássemos mesmo nisto, com certeza não haveria nada a temer, ou haveria? 

O Filho de Deus é livre. É claro que, se o que nos aprisiona e nos mantém acorrentados e acorrentadas à ilusão é o medo da morte, se aprendermos que não há morte, voltamos a experimentar a liberdade, voltamos a ser livres como sempre fomos. Pois o limitado e prisioneiro é apenas uma ideia equivocada de nós mesmos e de nós mesmas, uma ilusão que pensamos viver e que ocupa o lugar legítimo do Filho de Deus, enquanto acreditamos na separação. Não é aquilo que nós mesmos e nós mesmas somos que vive esta ilusão. É um ego, um falso eu, uma entidade que não existe, ilusória, assim como a morte.

Ao praticar com dedicação, com disposição e alegria a ideia de hoje, vamos deixar que o Filho de Deus em nós se apresente e assuma o lugar usurpado - aparentemente com nossa concordância - por um ser que não existe, um ser cuja existência se baseia apenas na crença equivocada em uma separação que também não existe, que inventou, na ilusão, a ideia de que podemos ser diferentes daquilo que somos verdadeiramente, esquecendo-nos de que somos, e seremos sempre, como Deus nos criou, conforme vimos e praticamos com a lição de ontem. 

A ideia que praticamos hoje, mais uma vez, tem de servir para trazer a cada um e a cada uma de nós a realidade que vamos encontrar em nossos dias, em nossa vida, quando escolhermos o que queremos experimentar. Precisamos nos lembrar sempre, constante e continuamente, a todo instante, em todos os instantes, que são nossas crenças, nossos pensamentos e emoções que materializam os fatos em nossa vida. 

É por isso que a liberdade só pode vir para quem não acredita na morte. Esse, ou essa, está sempre e em todos os momentos construindo sua vida a partir do sonho, de sua imortalidade. Aquele, ou aquela, que acredita na morte não é livre, porque os fatos que suas crenças, pensamentos e emoções materializam em sua vida servem para confirmar a inevitabilidade da morte. Quer dizer, quando escolhemos nossas crenças a vida, e o Universo todo com ela, se move na direção da confirmação delas. 

O que queremos, então? A vida sem fim, a imortalidade? A liberdade? Ou a morte? A escravidão?

Às práticas?

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Aprendamos a devolver ao mundo sua neutralidade

 

LIÇÃO 162

Eu sou como Deus me criou.

1. Este único pensamento, mantido na mente de forma decidida salvaria o mundo. Vamos repeti-lo de vez em quando, quando alcançarmos outro estágio no aprendizado. Ele significará muito mais para ti à medida que avançares. Estas palavras são sagradas, pois são as palavras que Deus deu em resposta ao mundo que fizeste. A partir delas o mundo desaparece e todas as coisas, vistas nas nuvens sombrias e ilusões fúteis dele, desaparecem assim que se diz estas palavras. Pois elas vêm de Deus.

2. Eis aqui a Palavra por meio da qual o Filho Se tornou a felicidade do Pai, Seu Amor e Sua completude. Aqui se anuncia e se exalta a criação tal como ela é. Não há nenhum sonho que estas palavras não dissipem, nenhuma ideia de pecado e nenhuma ilusão que o sonho contenha que não se desvaneçam diante de sua força. Elas são as trombetas do despertar que ressoam pelo mundo. Os mortos despertam em resposta a seu chamado. E os que vivem e ouvem estes sons nunca verão a morte.

3. Na verdade, aquele que torna suas estas palavras é santo, despertando com elas em sua mente, lembrando-se delas ao longo do dia, trazendo-as consigo à noite quando for dormir. Seus sonhos são felizes e seu descanso seguro, sua segurança está garantida e seu corpo curado, porque ele sempre dorme e acorda com a verdade diante de si. Ele salvará o mundo, porque dá a ele o que recebe cada vez que pratica as palavras da verdade.

4. Hoje praticamos de modo simples. Pois as palavras que usamos são poderosas e não precisam de nenhuma ideia além de si mesmas para mudar a maneira de pensar daquele que as usa. Ela muda de forma tão completa que é agora a sala do tesouro na qual Deus deposita todas as Suas dádivas e todo o Seu Amor, para serem distribuídos ao mundo inteiro, aumentando ao serem dados, mantidos completos porque seu compartilhar é ilimitado. E, desta forma, aprendes a pensar com Deus. A visão de Cristo devolve tua visão salvando tua mente.

5. Nós te exaltamos hoje. É teu o direito à santidade perfeita que aceitas agora. Com esta aceitação, traz-se a salvação para todos, pois quem poderia apreciar o pecado quando santidade como esta abençoa o mundo? Quem poderia se desesperar se a alegria perfeita é tua, acessível a todos como a cura da tristeza e do sofrimento, de toda sensação de perda, e para a liberação completa do pecado e da culpa?

6. E quem não quer ser teu irmão agora; tu, seu redentor e salvador. Quem poderia deixar de te acolher em seu coração com um convite amoroso, ansioso para se unir a alguém igual a si em santidade? Tu és como Deus te criou. Estas palavras dissipam a noite e não há mais escuridão. A luz veio hoje para abençoar o mundo. Pois tu reconheces o Filho de Deus e neste reconhecimento está o reconhecimento do mundo.


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COMENTÁRIO:

Explorando a LIÇÃO 162

Caras, caros, 

Quem sou? O que sou? O que faço aqui? Por que sou como sou? Ou melhor, por que penso ser como sou nesta ilusão de mundo? Que imagem faço de mim mesmo? 

Todas estas perguntas, e outras mais a respeito de nossa própria identidade, da maneira como nos posicionamos no mundo e de como vivemos a vida que recebemos, a vida que temos, passam pelas nossas cabeças de um modo ou de outro, num momento ou noutro, durante o tempo que pensamos viver. Não é mesmo?

O que a ideia que vamos praticar hoje oferece é a resposta definitiva a estas questões. Mesmo que ainda não sejamos capazes de acreditar, chegará o tempo em que reconheceremos a verdade que a ideia nos traz. E seremos capazes de aceitar nossa verdadeira identidade, e viver e construir nossa experiência no mundo, apesar de ilusório, a partir dela.

Vamos, pois, à exploração.

"Eu sou como Deus me criou."

Eu sou como Deus me criou. 

Repetindo a pergunta dos comentários de anos anteriores a esta lição: poderia ser diferente? Como posso pensar que de alguma maneira sou capaz de alterar a Criação? De mudar, macular, comprometer e pôr em risco a alegria, a paz e a felicidade completas e perfeitas, que são a Vontade de Deus para todos, todas, para cada um e cada uma de nós?

Vale a pena dedicarmos um instante à reflexão a respeito de algumas perguntas, como as acima, que podemos fazer a nós mesmos, a nós mesmas. Ou estas que já vimos e ouvimos mais de uma vez, então:  Vocês já se deram conta de que cada um, e cada uma, de nós só ouve aquilo que quer ouvir? E apenas no momento em que escolhe, se decide a, ouvir? Há uma explicação para isso, não acham?

Isto tem a ver, é claro, com o livre arbítrio. Tem a ver com a decisão que tomamos de aprender alguma coisa ou de ouvir o que alguém, próximo a nós ou não, diz. Mas, sobretudo, tem a ver com nossa decisão de dar ouvidos ou não à Voz por Deus em nós mesmos, em nós mesmas.

Deus, o divino, o espírito ou qualquer nome que queiramos dar Àquela Ideia que nos transcende e que transcende nossa experiência de corpos e de matéria, de percepção e de sentidos, tem sempre uma forma particular de falar com cada um e cada uma de nós. E cada um e cada uma de nós decide ouvi-Lo num momento particular de sua experiência.

É por isso que não podemos nos enganar nunca acreditando que aquilo que dizemos a uma pessoa em particular ou a um grupo de pessoas, independentemente das palavras que usemos, é exatamente aquilo que a pessoa ou as pessoas no grupo vão entender - porque as palavras têm sentidos diversos para diferentes pessoas. Ou que cada uma das pessoas que ouve o que dizemos entende exatamente da mesma forma que nós. Isto é, da forma que gostaríamos que entendesse. Ou do modo que entendemos ter dito aquilo que dissemos.

Isto não acontece quase nunca deste modo. E por quê? Porque todos nós usamos filtros individuais, particulares, que desenvolvemos a partir de nosso próprio experimentar do mundo ao longo do tempo. Assim é que tudo o que vemos, ouvimos, cheiramos, tocamos ou provamos recebe um significado que busca apenas confirmar aquilo que acreditamos a respeito de nós mesmos e de nós mesmas, do mundo e de tudo o que experimentamos nele.

Em geral, em razão de querermos que a(s) outra(s) pessoa(s) veja(m) da mesma forma que vemos, imaginamos que só há um modo de ver: o nosso. E nos aferramos à ideia de que a(s) outra(s) pessoa(s) deveria(m) ser capaz(es) de entender o nosso ponto de vista. E muitas vezes nos frustramos apenas porque pensamos que o outro, ou a outra, entendeu tudo errado, ou que não entendeu nada do que queríamos dizer.

É para implementar uma melhoria em nossas condições de comunicação neste mundo que vamos praticar a ideia de hoje. Uma ideia que - quem sabe? - pode nos dar  um instante único de uma compreensão comum. Uma ideia que quer - e pode, e vai - nos devolver à condição original de Filhos de Deus, uma ideia que já vimos e praticamos antes. Uma das ideias mais importantes que precisamos aprender, e apreender, para caminhar na direção de alcançar - apesar de inalcançável, como já vimos - o objetivo do autoconhecimento que nos propõe o  Curso, durante nossa curta experiência neste mundo de ilusões.

Como o Curso diz, ao mesmo tempo em que é importante para que busquemos alcançar o objetivo do Curso, a ideia que praticamos hoje é também um dos mais poderosos instrumentos de que podemos nos valer para dissipar todas as ilusões do mundo, eliminando com elas nossa necessidade de interpretação e devolvendo ao mundo, e às coisas nele, a neutralidade original, que não depende de nosso julgamento, nem dos filtros de nossa percepção.

E voltando mais uma vez às perguntas feitas logo no início de nossa exploração da ideia de hoje: alguém acha que faz diferença para um copo qualquer dizer-se a ele (ou pensar-se dele) que ele é grande, pequeno, verde ou incolor, de vidro ou de plástico, que está cheio, meio cheio ou meio vazio? Ou mesmo que faça alguma diferença para aquilo que o objeto é, em essência, que se dê a ele o nome de copo ou o de vaso, ou que se o chame simplesmente de um recipiente utilizado para se armazenar (ou para beber) líquidos, se este for o fim para o qual o utilizamos? Ele também pode servir, para usar o mesmo exemplo dado em anos passados, como um instrumento de medida, numa receita.

O mundo, e tudo o que existe nele, é neutro. Já ouviram isto antes? E "eu sou como Deus me criou"? Isto é tudo o que precisamos saber - e praticar muito, mas muito mesmo - para mudar por completo nossa forma de pensar acerca de nós mesmos e de nós mesmas e a respeito do mundo e de tudo o que nos cerca. Pois isto, esta ideia, devolve a cada um e a cada uma de nós a condição original de Filho, ou Filha, de Deus e a unidade com tudo e com todos. E devolve ao mundo sua condição original de neutralidade, de simples instrumento de que nos podemos valer para experimentar o que somos em e com Deus.

É para aprender isto que praticamos hoje. 

E, uma vez que o mundo aparentemente não nos dá a alegria que gostaríamos de viver [porque nada no mundo pode ser duradouro, eterno, tudo nele é efêmero e muda o tempo todo], da forma como o vemos, podemos nos perguntar também: em que medida queremos mudar nosso modo de ver? A resposta a esta questão pode trazer luz aos resultados das escolhas que fazemos, iluminando também as razões pelas quais vivemos as experiências que vivemos. Pois como todos e todas já estamos cansados e cansadas de saber, ou de ouvir dizer, o mundo só muda quando - e se - mudamos.

Às práticas?

quarta-feira, 10 de junho de 2026

"Crer para ver" é a lógica correta, e não o contrário

 

LIÇÃO 161

Dá-me tua bênção, Filho santo de Deus.

1. Hoje praticamos de modo diferente e assumimos uma posição diante de nossa raiva, a fim de que nossos medos possam desaparecer e oferecer espaço para o amor. A salvação está aqui nas palavras sinceras com que praticamos a ideia de hoje. Aqui está a resposta à tentação, que não pode nunca deixar de acolher o Cristo no lugar em que medo e raiva predominavam antes. Aqui se completa a Expiação, ultrapassa-se o mundo com segurança e o Céu é restituído imediatamente. Aqui está a resposta da Voz por Deus.

2. A abstração completa é a condição natural da mente. Mas uma parte dela não é natural agora. Ela não olha para todas as coisas como uma só. Em lugar disso, ela vê apenas fragmentos do todo, pois apenas deste modo ela poderia inventar o mundo imperfeito que vês. A finalidade de todo o ver é te mostrar aquilo que desejas ver. Todo o ouvir apenas traz a tua mente os sons que queres ouvir.

3. Assim se criaram as particularidades. E agora são as particularidades que temos de usar ao praticar. Nós as damos ao Espírito Santo para que Ele possa empregá-las para um propósito que seja diferente daquele que lhes demos. Contudo, Ele só pode usar o que fizemos para nos ensinar a partir de um ponto de vista diferente, de forma que possamos ver uma utilidade diferente para todas as coisas.

4. Um irmão é todos os irmãos. Cada mente contém todas as mentes, pois todas as mentes são uma só. Esta é a verdade. Mas estes pensamentos deixam claro o significado da criação? Estas palavras trazem com elas perfeita clareza para ti? O que parecem ser exceto sons vazios, belas talvez, corretas em sentimentos, mas fundamentalmente não compreendidas nem compreensíveis. A mente que ensinou a si mesma a pensar de forma particular não pode mais apreender a abstração no sentido de que ela é todo-abrangente. Precisamos ver um pouco para aprender muito.

5. Parece ser o corpo que sentimos limitar nossa liberdade, fazer-nos sofrer e, por fim, extinguir nossa vida. Mas corpos são apenas símbolos para uma forma concreta de medo. O medo, sem símbolos, não pede nenhuma reação, pois os símbolos só podem representar o sem sentido. Por ser verdadeiro, o amor não precisa de nenhum símbolo. Mas o medo, por ser falso, se prende às particularidades.

6. Corpos atacam mas mentes não. Esta ideia é lembrança de nosso livro texto, onde é enfatizada com frequência. É esta a razão pela qual corpos se tornam símbolos de medo facilmente. Insistiu-se muitas vezes contigo para olhares além do corpo, pois a visão dele apresenta o símbolo do "inimigo" do amor que a visão de Cristo não vê. O corpo é o alvo para o ataque pois ninguém pensa odiar uma mente. Porém, o que a não ser a mente determina que o corpo ataque? Que outra coisa poderia ser a sede do medo exceto aquilo que pensa no medo?

7. O ódio é particular. Tem de haver algo a ser atacado. Tem-se de perceber um inimigo de tal forma que ele possa ser atacado e visto e ouvido e, por fim, morto. Quando o ódio pousa sobre algo, ele exige a morte com tanta certeza quanto a Voz de Deus anuncia que a morte não existe. O medo é insaciável e absorve tudo o que seus olhos veem, vendo-se a si mesmo em tudo, forçado a se voltar contra si mesmo e a destruir.

8. Aquele que vê um irmão como um corpo o vê como símbolo do medo. E atacará porque o que vê é seu próprio medo fora de si mesmo, pronto para atacar e clamando para se unir a ele novamente. Não te deixes enganar pela intensidade da raiva que o medo projetado tem de gerar. Ele uiva, em fúria, e arranha o ar na esperança desvairada de poder alcançar seu autor e devorá-lo.

9. É isto que os olhos do corpo veem em alguém a quem o Céu estima, a quem os anjos amam e a quem Deus criou perfeito. Esta é a realidade dele. E, na visão de Cristo, sua beleza se reflete de uma forma tão sagrada e tão linda que dificilmente poderias resistir a te ajoelhares a seus pés. Porém, em vez disso, tomarás a mão dele pois és igual a ele na visão que te vê assim. O ataque a ele é um inimigo para ti, pois não perceberás que tua salvação está nas mãos dele. Pede-lhe apenas isto e ele te dará. Pede-lhe que não simbolize teu medo. Tu pedirias que o amor destruísse a si mesmo? Ou queres que ele te seja revelado e te liberte?

10. Hoje praticamos de uma forma que tentamos anteriormente. Tua prontidão está mais próxima agora e hoje chegarás mais perto da visão de Cristo. Se estiveres atento para alcançá-la, serás bem-sucedido hoje. E, uma vez que fores bem-sucedido, não estarás mais disposto a aceitar as testemunhas que os olhos de teu corpo fazem surgir. O que verás entoará para ti antigas melodias de que te lembrarás. Tu não estás esquecido no Céu. Não queres te lembrar dele?

11. Escolhe um irmão, símbolo dos demais, e pede a salvação a ele. Vê-o, em primeiro lugar, tão claramente quanto puderes, na mesma forma com a qual estás acostumado. Vê o rosto dele, suas mão e pés, sua roupa. Observa o sorriso dele e vê gestos familiares que ele faz com tanta frequência. Em seguida pensa nisto: o que vês agora esconde de ti a visão daquele que pode perdoar todos os teus pecados, cujas mãos sagradas podem arrancar os cravos que trespassam as tuas e erguer a coroa de espinhos que colocaste sobre tua cabeça ensanguentada. Pede-lhe isto para que ele possa te libertar:

Dá-me tua bênção, Filho santo de Deus. Eu quero te ver
com os olhos de Cristo e ver em ti minha inocência perfeita.

12. E Aquele Que invocaste te atenderá. Pois Ele ouvirá a Voz por Deus em ti e responderá com tua própria voz. Olha agora para ele, a quem vês apenas como carne e osso, e reconhece que Cristo vem a ti. A ideia de hoje é tua saída segura para a raiva e para o medo. Certifica-te de a usares imediatamente, caso sejas tentado a atacar um irmão e perceber o símbolo de teu medo nele. E o verás subitamente transformado de inimigo em salvador, de demônio em Cristo.

*

COMENTÁRIO:

Explorando a LIÇÃO 161

Caras, caros,

Por que razão ainda nos acreditamos pessoas miseráveis, parcas de poder, de vontade, incapazes de modificar qualquer situação difícil que se apresente? 

Por que ainda acreditamos que o mundo é cruel e que tudo o que ele faz é para nos magoar e ferir, como se o mundo não fosse absolutamente neutro, sem poder nenhum para nada, a não ser quando lhe damos o poder sobre qualquer coisa?

Aliás, por que ainda acreditamos que existe um mundo? Ou que é preciso melhorá-lo?

Podemos refletir acerca de todas estas questões enquanto praticamos com a ideia que o ensinamento nos traz para hoje e, quem sabe, até encontrar alguma resposta para elas. Quem sabe até possamos chegar ao entendimento das razões por que acontece tudo o que acontece. 

Vamos tentar? 

"Dá-me tua bênção, Filho santo de Deus."

Vamos encontrar, uma vez mais, na ideia que o Curso nos oferece para as práticas de hoje, a todos, todas, a cada um e a cada uma de nós, a única saída possível para o inferno que pensamos viver: o aprendizado da visão de Cristo. É neste aprendizado, e em nossas práticas com a ideia para chegar a ele, que vamos encontrar o meio de pedir - e acreditar que receberemos - que a visão de Cristo nos seja dada, para que nos tornemos capazes de olhar para tudo e para todos como um só, como partes nossas que não estão separadas de nós. Para podermos nos tornar íntegros. Melhor dizendo, para podermos voltar a nos perceber íntegros e íntegras. 

Tudo o que existe é parte de nós e nos completa. Da mesma forma que o Curso ensina que "o Próprio Deus é incompleto sem mim", precisamos nos perceber íntegros e íntegras em nós mesmos, em nós mesmas, com tudo o que está a nossa volta e faz parte de nossa vida. Isto se quisermos corrigir a percepção que, orientada pelo ego, quer que pensemos ser incompletos e incompletas, ou que pensemos que é possível que sejamos incompletos e incompletas, cada vez que excluímos alguma coisa ou alguém de nossa vida. Ou cada vez que alguma coisa sai, ou alguém resolve sair aparentemente de nossa vida.

De acordo com o que o Curso ensina, não há nenhuma particularidade na visão de Cristo. A partir dela somos capazes de perceber que tudo e todos, o tempo todo e a cada momento, cumprem apenas o papel que lhes cabe no plano de Deus para a salvação. É também a partir dela que podemos compreender que tudo o que vemos é apenas uma interpretação que fazemos da realidade aparente, por e para nossa percepção equivocada. As práticas ensinam que podemos mudar isto valendo-nos da visão de Cristo.

Ainda de acordo com o que o Curso ensina, assim como é impossível não acreditarmos naquilo que vemos, é igualmente impossível ver algo em que não acreditamos. Pois nossa percepção - a de todos, todas, a de qualquer um e a de qualquer uma de nós - se constrói a partir da(s) experiência(s), que leva(m) à(s) crença(s) e a(s) constrói(oem). 

Precisamos, porém, ter em mente de forma bem clara que percepção e consciência são coisas diferentes, muito embora usemos a palavra percepção indistintamente para nos referirmos tanto à consciência quanto à interpretação daquilo de que tomamos consciência. A lógica correta, para quem se acredita espírito e não só corpo, é "crer para ver", e não o contrário, como quer o ego.

Precisamos aprender e ter bem claro para nós mesmos e para nós mesmas, e em nós, o tempo todo, que tudo o que percebemos é apenas nossa própria interpretação [normalmente orientada na maioria das vezes pelo ego] daquilo que vemos, daquilo que projetamos no mundo e que tomamos por realidade, ou daquilo que experimentamos a partir dos sentidos. Pois a consciência não necessita da percepção nem das crenças, nem das imagens.

Daí, a necessidade de aprendermos a usar a visão de Cristo para abandonar de uma vez por todas a interpretação que fazemos do mundo e das coisas do mundo a partir do sistema de pensamento do ego. Como já vimos, o mundo - e tudo e todos que existem nele - é neutro. Apenas nós podemos lhe dar valor e significado.

Daí a necessidade das práticas. 

A elas?